#137 – O que é ser bem-sucedido?
Sobre comparações, idade e a crueldade do tempo; mas não só.
Considere assinar um dos planos pagos da newsletter Passageiro para ter acesso a textos exclusivos e outros bônus – incluindo encontros mensais com convidados do mais alto calibre (já passaram pelo Clube Passageiro nomes como Carol Bensimon, J.P. Cuenca, Pe Lu, Tira do Papel, Arthur Miller, No Plans For Tomorrow, Fabiane Guimarães, entre outros).
Na última quarta-feira (06), por exemplo, recebi Luri Ribeiro para uma conversa sobre como começar no Substack (todos os encontros ficam gravados).
🎧 Para ler ouvindo1: Telescope, por Cage The Elephant.
📍 Paris, França
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
1.
A livraria onde lancei Nômade Digital, em 2019, não existe mais; assim como muitas livrarias brasileiras, fechou as portas e deu lugar a uma franquia de fast fashion. Exceto por um semestre em que minha editora fez uma parceria com a Skeelo (infelizmente não é publi), os 7% de direitos autorais que recebo de seis em seis meses pela obra, que vendeu relativamente bem e foi finalista do Prêmio Jabuti, mal pagam 1 mês de aluguel numa kitnet no interior de Santa Catarina – quem dirá em Paris, onde vivo. A newsletter Passageiro, meu projeto literário, digamos, mais bem-sucedido, cobre os custos do meu negócio digital de uma pessoa só – contabilidade, impostos, ferramentas e algumas perfumarias –, mas está bem longe de ser algo lucrativo (sempre bom frisar: faturamento e lucro são coisas diferentes).
Dia desses me perguntaram no Instagram porque decidi ser escritor; vez ou outra me pergunto o mesmo.
2.
“Você sente que teve uma carreira bem-sucedida?”, pergunta Yuri Moraes (40) para Lourenço Mutarelli (62), autor, entre outros, d’O cheiro do ralo.
“Eu acho que bem-sucedido seria se eu vivesse de royalties. Eu publiquei 10 romances, sei lá quantos quadrinhos, eu não vivo de royalties. O que eu ganho de royalties por trimestre não paga um mês da minha vida. Acho que ser bem-sucedido é se eu pudesse viver do fruto do que eu plantei, né? Mas eu vivo do que eu tô garimpando e trabalhando e plantando no agora. Também é o que me mantém vivo. Eu acho que eu estaria bem-sucedido se não precisasse pegar tanta encomenda, sabe? Se eu não precisasse dar tanta aula, se eu pudesse falar: ‘bom, legal, vou fazer uma coisa bem legal agora pros meus leitores’, assim, pra mim… mas não consegui.”
O trecho em questão começa em 1:16:40. Recomendo, no entanto, assistir a conversa inteira. É sempre bom ouvir o Lourenço; e o Yuri conduz o papo muito bem.
3.
“Você sabe que a vida começa aos 40, né?”, diz Lourenço para Yuri em outro trecho do vídeo. “Começa aos 40 e acaba aos 43”, ele brinca.
Esse mês completo 37 anos. Decidi ser escritor aos 24. Estava numa fase meio Jack Kerouac, meio beatnik, meio Bob Dylan quando leu On the road, “li On the Road talvez em 1959. Isso mudou minha vida, como mudou a de todo mundo.”
Criei um blog após um mochilão pela Europa, certa pretensão de contar minhas andanças pelo mundo; e ser lido; e ser pago por isso.
Ser bem-sucedido.
O convite para escrever Nômade Digital chegou quando fiz 29; quando ele foi publicado eu já tinha 30. E aí sete anos sem publicar um livro. E as comparações inevitáveis quando vejo algum ou alguma coleguinha neste mesmo Substack anunciando lançamento de livro; sete anos sem publicar um livro, os leitores perguntando quando sai livro novo, eu precisando dar aula e fechar Mentoria para pagar o aluguel; eu pegando encomenda.
4.
Charles Bukowski só foi bem-sucedido com a sua escrita após os 50. Antes disso, fez de tudo um pouco para se virar. Trabalhou em uma fábrica de biscoitos para cachorro, entregou panfletos no metrô e foi carteiro por 12 anos – experiência que inspirou seu primeiro romance, Cartas na rua.
Em sua lápide, um aviso: “não tente.”
5.
Escrever para não enlouquecer é uma coletânea de cartas enviadas por Bukowski para editores, outros escritores e figurões da indústria; geralmente com ele reclamando ou cobrando alguém por não ter sido publicado.
Mas também tem uns momentos fofos. Como quando Bukowski escreve para John Fante – que pegou a estrada antes de Kerouac.
[Para John Fante] 31 de janeiro de 1979
Obrigado pela boa carta. É uma sensação muito esquisita, muito estranha, receber uma carta sua. Já se passaram algumas décadas desde que li Pergunte ao pó pela primeira vez. Martin me mandou um xerox do romance e eu estou mergulhando nele de novo e a leitura é ótima como sempre. Junto com Crime e castigo de Dos e Viagem de Céline, é o meu romance favorito. Me desculpe por não ter respondido antes, mas no momento estou metido em inúmeras coisas: roteiro, corrigindo roteiro de outra pessoa, um conto e também bebendo e apostando nos cavalos e brigando com minha namorada, e visitando minha filha, e depois me sentindo mal e depois me sentindo bem, e o resto todo. Aí perdi a sua carta e eu estava tão orgulhoso dela e ontem à noite a encontrei, eu estava usando a parte de trás do envelope para fazer sugestões de correções no roteiro de um sujeito (e adaptação do meu primeiro romance, Cartas na rua). Então aqui está chovendo e estou lhe escrevendo depressa porque quero correr até o banco para descontar um cheque de modo que eu possa ir ao hipódromo amanhã.
A sua escrita ajudou minha vida, me deu verdadeira esperança de que um homem poderia simplesmente fixar as palavras e deixar que as emoções tomassem conta. Ninguém fez isso tão bem quanto você. Vou ler o livro devagar, desfrutar dele mais uma vez e ficar na esperança de que eu consiga escrever um prefácio razoável. [H.L.] Mencken tinha um olho bom, entre outras coisas, e acho que já está na hora de um talento como o seu vir à tona de novo, a Black Sparrow muito embora não seja Nova York tem certo prestígio e bangue-bangue e tais livros têm mais chance de durar e serem lidos por outras pessoas além do público em geral que meramente devora seja lá o que for que Nova York lhes dê para comer. Ótimo ter notícia sua, Fante, você é o número um sem sombra de dúvida. Perdoe a minha datilografia. Depois de terminar o livro e fazer o prefácio eu vou enviá-lo a você para o seu o.k., esperançosamente. Tudo de bom para sua esposa e filho. O céu está molhado hoje e amanhã a pista vai estar lamacenta mas estarei pensando em você e na sorte que terei em ser capaz de dizer às pessoas por que Pergunte ao pó é tão bom. Obrigado, sim, sim, sim...
6.
Dia desses recebi um e-mail de uma pessoa interessada na Mentoria Monetize que disse, entre outras coisas, que “taí alguém que conseguiu viver o sonho” – no sentido de viver da escrita, de ser bem-sucedido. Ela conta sobre um livro que traduziu, uma oficina de escrita que facilitou e “foi uma das coisas mais bonitas” que já fez e termina: “estou quase completando 49 anos e aprendendo que AGORA é a hora, e que nunca é tarde, enquanto houver vida e desejo pulsando.”
Compartilho parte da minha resposta:
Antes de falar sobre a mentoria em si, deixa eu te contar umas coisinhas; já que você falou em idade e em o melhor momento ser o agora.
Quando meu primeiro livro foi publicado, esse que você leu, eu tinha 30 anos. Me sentia velho e “atrasado” em estar publicando um livro apenas aos 30 – ficava me comparando com autores consagrados de outros tempos que aos 25 já tinham publicado vários. Agora, prestes a completar 37 – e com um segundo livro no forno –, estava justamente aqui pensando como fiquei esses últimos 7 anos sem publicar nada?
A resposta é simples: porque o mundo mudou e hoje escritores têm outras funções além de escrever seus livros – por isso essa comparação com os autores do passado não faz sentido.
Não publiquei um segundo livro nos últimos 7 anos, mas essa semana sai a 137ª edição de Passageiro (fora as edições extras e a cobertura que fiz das Olimpíadas; credenciado graças a própria newsletter!). Cada edição tem, em média, 1 mil palavras. Digamos que eu tenha escrito 136 mil palavras. Nômade Digital, meu livro, tem 33 mil. Não sou bom em matemática, mas acho que escrevi pelo menos um livro por ano desde que Passageiro foi ao ar em 2022 hahaha.
Por que eu tô contando isso?
Dois motivos.
1) Você falou que consegui viver o sonho. De fato. Isso é o que sonhei lá atrás, em 2013, quando criei um blog; e depois em 2015, quando comecei a escrever no LinkedIn. Eu não sabia direito o que estava fazendo, mas segui minha intuição. Com Passageiro, a newsletter, em 2022, eu sabia exatamente o que eu estava fazendo: criando uma comunidade de leitores pensando no futuro; quando meu segundo livro sair, terei +20 mil leitores em potencial; mais que isso: graças a newsletter e a esse posicionamento também em outras redes (o trabalho que os autores consagrados do passado não precisavam fazer), consegui estabelecer meu nome no mercado editorial – algo muito difícil para alguém fora das panelas e do eixo Rio-SP.
2) Você falou que a oficina foi uma das coisas mais bonitas que fez na vida. Eu fico genuinamente feliz em saber disso porque, mesmo que viva o sonho, a grande maioria dos escritores brasileiros vive exatamente disso: cursos. Minha newsletter é monetizada, de 6 em 6 meses ganho uns trocados com direitos autorais do livro, tenho algumas outras fontes de renda pontuais, mas a maior parte da renda vem daí: cursos e mentorias. Então é maravilhoso que você curta genuinamente ensinar (eu adoro!). Agora, deixando a parte financeira de lado (que obviamente é importante; todos precisamos pagar os boletos), todo esse trabalho de formiguinha feito há anos nas redes sociais tem me trazido algo que dinheiro nenhum paga: a criação de comunidade e vínculo real com quem me lê. Um dos leitores mais fiéis de Passageiro, o seu José, tem 88 anos e responde todas as edições da newsletter por e-mail – ele talvez nem saiba o que é o Substack; apenas gosta de ler os textos que recebe por e-mail e faz questão de tirar um tempinho toda semana pra me dizer isso.
7.
Então você quer ser escritor?, por Charles Bukowski.
se não irrompe de dentro de você
apesar de tudo,
não faça.
a menos que venha sem pedir do seu
coração e da sua mente e da sua boca
e das suas entranhas,
não faça.
se você tem que se sentar por horas
encarando a tela do computador
ou debruçado em sua máquina de escrever
procurando palavras,
não faça.
se você estiver fazendo isso por dinheiro ou
fama,
não faça.
se estiver fazendo isso porque quer
mulheres em sua cama,
não faça.
se você tem que sentar lá e
reescrever de novo e de novo,
não faça.
se é cansativo apenas pensar em fazer isso,
não faça.
se estiver tentando escrever como outra
pessoa,
esqueça.
se você tem que esperar isso rugir de dentro de
você,
então espere pacientemente.
se isso nunca rugir de dentro de você,
faça alguma outra coisa.
se você primeiro tem que lê-lo para sua esposa
ou sua namorada ou seu namorado
ou seus pais ou para ninguém,
você não está preparado.
não seja como tantos escritores,
não seja como tantos milhares de
pessoas que se consideram escritoras,
não seja lento e entediante e
pretensioso, não se consuma com amor-
-próprio.
as livrarias do mundo têm
bocejado até dormir
sobre seu tipo.
não faça parte disso.
não faça.
a menos que isso venha de dentro
da sua alma como um foguete
a menos que manter isso
te leve a loucura ou
suicídio ou assassinato,
não faça.
a menos que o sol dentro de você esteja
queimando suas entranhas,
não faça.
quando for a hora,
e se você tiver sido escolhido,
isso será feito
sozinho e isso continuará se fazendo
a menos que você morra ou isso morra em você.
não há outra maneira.
nem nunca houve.
Naqueles momentos em que me questiono sobre o porquê de continuar escrevendo num cenário cada vez mais desanimador para quem escreve, lembro do velho Buk, lembro também de Kerouac, “(…)para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício,(…)”
A escrita segue queimando aqui dentro e, enquanto a chamar estiver acesa, irei com tudo.
8.
Ah, demorou, mas escrevi um livro novo. É um romance. Meu primeiro romance. Há algo de podre no reino da Tailândia. Falarei dele na próxima edição de Passageiro. Ainda vai um tempo até o livro ser publicado, mas é isso: escrevi um romance.
A vida está só começando.
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De acordo com um estudo divulgado pelo Reletter, atualmente há impressionantes 1,7 milhão de newsletters hospedadas somente no Substack e no LinkedIn (sem contar as ferramentas tradicionais de e-mail marketing); apenas 12% dessas newsletters, no entanto, estão ativas (ou seja, publicaram conteúdo novo nos últimos 45 dias). Descubra como chegar aos 1.000 assinantes e superar o desafio das 21 edições, criando um projeto consistente e de sucesso no mercado. (infos aqui)
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🧠 Para ler, assistir e ouvir
“Faça as pazes com o desejo de ser lida”; esse texto da Verbena Cartaxo.
“A gente sabe que vai morrer, mas não acredita”; os bastidores da conversa do Yuri Moraes com o Lourenço Mutarelli.
Apostrophes foi tipo um Roda Viva francês focado em literatura que esteve no ar na França entre 1975 e 1990. A foto que abre a edição de hoje da newsletter é a bizarra participação de um embriagado Charles Bukowski em 1978. Tem vídeo (em francês).
Tô curtindo demais acompanhar o Kaio D’Elaqua no YouTube. Seria ele o nosso Anthony Bourdain tupiniquim? Esse vídeo sobre o underground do sushi na quebrada de SP é muito bom; mas meu favorito é esse com o Louis, um indivíduo entre 20 e 70 anos de idade que trabalha consertando e vendendo máquinas de escrever.
Falando em Antonhy Bourdain, saiu o trailer de Tony, cinebiografia da A24 sobre o saudoso chef/escritor/apresentador/viajante.
Esqueça Acorda, Pedrinho: Migalhas, o novo álbum do Jovem Dionisio, tem uma vibe gostosinha demais.
Você sabia que esta newsletter tem uma playlist no Spotify com todas as músicas indicadas aqui? Pois é. A Rádio Passageiro é atualizada semanalmente.






Lindo texto, me emocionou! Parabéns por continuar escrevendo, saiba que as suas palavras fazem diferença.
As vezes também me sinto atrasada, obrigada por me lembrar que não estamos.
Adorei saber do seu José!
romance finalizado? pdf enviado? to curioso!