#135 – Belos fracassados
Sobre as Perfeições & os Bobos da Corte.
🎧 Para ler ouvindo1: A Feast of Friends, por Jim Morrison / Famous Blue Raincoat, por Leonard Cohen / Not Like Us, por Kendrick Lamar.
📍 Paris, França
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
1.
“Eu sempre quis ser amado pelo Partido Comunista e pela Santa Igreja. Eu queria viver numa canção folk, como Joe Hill. Eu queria chorar pelas pessoas inocentes que depois eu mutilaria com uma bomba. Eu queria agradecer ao velho camponês que nos alimentou em nossa fuga. Queria usar a manga dobrada e presa com um alfinete, e ver as pessoas sorrirem diante de minha saudação com a mão errada. (…) Queria que a Quinta Avenida lembrasse as trilhas dos indígenas que por ali passaram. Eu queria sair de uma cidade de mineiros e adotar as convicções e maneiras rudes de um tio ateu e alcoólatra, a vergonha da família.”
Trecho de Belos fracassados, romance de Leonard Cohen.
2.
Em 1960, Leonard Cohen, na época com 25 anos, estava tentando a vida de escritor em Londres. Em um dos vários dias frios e chuvosos da capital inglesa, procurou abrigo na marquise de uma agência bancária. Conversando com um funcionário bronzeado, perguntou-lhe como conseguira aquela cor. “Acabei de voltar de uma viagem à Grécia”.
O jovem poeta então comprou uma passagem de avião para Atenas, foi até o Porto do Pireu, pegou uma balsa e desceu em Hidra, uma ilha na Grécia onde a eletricidade era intermitente, os automóveis proibidos e mulas transportavam água até as casas. Lá, alugou uma casa por 14 dólares/mês e juntou-se a uma comunidade de artistas, escritores e outros boêmios expatriados. Mais tarde compraria uma casinha branca por 1.500 dólares, graças a uma herança que recebeu da avó. Viveria seis anos em Hidra, onde compôs suas primeiras canções.
Sou obcecado com essa história.
3.
Interessei-me por As perfeições, do italiano Vincenzo Latronico, por conta de uma resenha pouco elogiosa da Quatro Cinco Um assinada por um certo Paulo Roberto Pires.
Esse trecho em especial me pegou:
“(…) Tom e Anna, protagonistas de ‘As perfeições’, são ‘nômades digitais’ (aspas necessárias) que trocaram a Itália por Berlim e ralam dia e noite em seus laptops.”
“Aspas necessárias.”
Em 2017, troquei o interior de Santa Catarina para cair no mundo e ralar dia e noite com meu laptop.
Tornei-me um “nômade digital” (aspas necessárias) – e fui finalista do Prêmio Jabuti com um livro sobre o tema.
40 países desde então.
E contando.
(Mic drop).
4.
Neste mesmo texto para a Quatro Cinco Um, Paulo escreve palavras pouco elogiosas para uma certa Boba da Corte.
“(…)a escritora, costuma afirmar que é discriminada por não ter estudado nos colégios de elite de São Paulo, por comandar podcasts e não se enquadrar num estereótipo de escritor pobretão. A plena inserção nos meios intelectuais, editoriais e midiáticos a desmentem — bem como a recepção generosa ao novo romance, a começar por esta Quatro Cinco Um. Mas talvez esse discurso se deva (…) a personagem, se adiantando à autora na criação de uma outsider imaginária, fantasia de inadequação ao mundo a que ela pertence de fato, com força e com vontade.”
5.
Jim Morrison morreu aqui em Paris. É a terceira vez que visito seu túmulo no Père-Lachaise. Morreu aos 27 anos – faço 37 mês que vem, terei vivido 10 anos mais que Jim. Tem um vídeo de 2003 em que Robby Krieger e Ray Manzarek, seus companheiros no The Doors, visitam seu túmulo. Ray, que deixaria este mundo em 2013, solta algo como: “se Jim não tivesse vindo pra Paris, ainda estaria vivo.”
6.
É fácil perder a mão em Paris – principalmente se você é artista.
Mas voltemos.
Boba da Corte.
7.
Ela, a Boba da Corte, fez de novo.
Escreveu na Folha de S.Paulo num texto bizarro numa vibe político em época de eleições comendo pastel na feira que será gentil com certos tipos de pessoas; incluindo “Substackers”:
8.
Para T. B.,
sem carinho
não tão belo
mas fracassado
não tão encharcado de empáfia
mas de suor
operário das palavras
do interior
não de São Paulo
mas de Santa
& fascista
Catarina
(você adoraria, T. B.)
não é publicitário
não é contista
está tentando ser romancista
quem sabe um dia roteirista
mas já foi cronista
no mesmo jornal que deve pagar
mais que 100 reais
por texto
que é o que me pagavam
para que você, T.B.
escreva sobre
suas próprias conquistas
porque não conseguiram?
você pergunta
sobre não sermos
nós
do Substack
essas imundiças2
publicados em editoras
e mídias em geral
e lhe digo,
T. B.
com a melhor das intenções
que panela pra nós
do Substack
com nossos 40
talvez 43 leitores
é onde colocamos comida
(não sei os outros “Substackers”;
mas eu fui demitido do tal jornal)
vago entre qualquer coisa
de literatura
não da alta
me falta talvez
um sobrenome
italiano
mas vago
pelo imundo
mercado
do dinheiro
o seu mercado,
T.B.
o mercado da publicidade
Os anúncios nos fazem comprar carros e roupas,
trabalhar em empregos que odiamos
para comprar as porcarias que não precisamos
Tyler Durden, o Brad Pitt, em Clube da Luta
sinto-me, T.B.
uma puta
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saiu curso novo:
200 reais de desconto
até o dia
dezenove
LinkedIn,
a rede onde o dinheiro de verdade está
dinheiro do pessoal
que mora no bairro da T.B.
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Now and Then
dos Beatles
tocando
não tem a ver com o assunto
mas que música
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T. B. escreveu que
quer abraçar gente estranha
já eu
só quero que
T.B. se foda
seria indecente
fechar os olhos
para as imundícies do nosso campo
9.
dia desses
Brasil x França
futebol
me chamam para assistir
a peleja
na Rue Milton
naquele restaurante brasileiro
que costumávamos ir
e comer feijoada
e tomar caipirinhas
Brasil perde o jogo
2x1
me chamam para ir num bar qualquer
subimos a rua
até a Pierre Fontaine
Pigalle
75009
duas da manhã
um bar aberto
o bar do térreo
do nosso prédio
Samir não está lá
ninguém pergunta por onde andei
mas andei por Tailândia
andei por Índia,
andei por Indonésia
andei por Japão
e andei por Brasil
e o Wi-Fi conecta direto
SFR_8E3F
e no fim da noite
não resisto
digito o código
7146
e meu sobrenome ainda
está na lá
na caixa postal
DE SOUZA3
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Eu juro, T. B., que essa palavra existe no interior do Brasil. Não está no dicionário, não soa tão bem quanto “empáfia”, mas está lá.
Ler DE SOUZÁ (com sotaque francês).





hahaha muito bom! Terminei o texto rindo e indo procurar o que "empáfia" quer dizer