#141 – Diários de motocicleta: do norte do Vietnã à fronteira com a China
Sozinho; mas não só.
🎧 Para ler ouvindo → POV: você está atravessando o norte do Vietnã de moto
(Fiz uma playlist especial para essa aventura)
📍 Cao Bang, Vietnã
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
“Dizem que, seja lá o que você esteja procurando, encontrará aqui. Dizem que quando chegamos ao Vietnã entendemos tudo em questão de minutos, mas o resto tem de ser vivido. O cheiro. Isso é a primeira coisa a nos atingir, a prometer tudo em troca da nossa alma. E o calor. Sua camisa fica imediatamente encharcada“.
O americano tranquilo (2002), filme baseado no livro homônimo de Graham Greene.
1.
Segundo um tal Anthony Bourdain, “o ÚNICO jeito de ver o Vietnã” é pilotando uma motinho envenenada, de modo que, faço o check in num hotel qualquer do caótico Old Quarter de Hanói e procuro por uma locadora de motocicletas. Nos últimos anos, graças aos vídeos (todos iguais) de influenciadores digitais em redes cada vez menos sociais, o Ha Giang Loop, um roteiro com cerca de 400km repleto de estradas sinuosas e paisagens de tirar o fôlego, ficou famoso, isto é, tornou-se uma atração turística com todos os efeitos colaterais gerados pelo turismo em massa – trânsito, preços superfaturados, golpes e todo o tipo de armadilha para estrangeiros desatentos –, o que me faz procurar por rotas alternativas.
“Se você quer uma experiência mais autêntica, sugiro ir para Cao Bang, perto da fronteira com a China.” – diz o rapaz da locadora.
“Você acha uma boa ideia sair daqui de Hanói e ir até lá de moto?”
“Não. Tem chovido bastante, não é muito seguro. Você pode pegar um ônibus até Cao Bang, posso te ajudar com isso, são umas seis horas de viagem até lá, e depois alugar uma moto e fazer o trajeto até a fronteira com a China, são uns 300km, as estradas são boas e o caminho é lindo, plantações de arroz, montanhas, cachoeiras. Além disso, assim como em Ha Hiang, no caminho de Hanói até Cao Bang você vai encontrar muitas barreiras policiais. Mesmo com os documentos em dia, os policiais podem te multar ou pedir propina porque você é estrangeiro.”
“E em Cao Bang, você acha que tem muitos policiais?”
“Não, lá é tranquilo. Ninguém vai lhe parar.”
Ok, vamos supor, apenas supor, que eu não tenha habilitação para dirigir motocicletas – nem no Brasil, muito menos no estrangeiro. Agora vamos supor, apenas supor, que quem me ensinou a dirigir motinhos envenenadas foi um sujeitinho tailandês dono de uma locadora de motocicletas que também funciona como restaurante, lavanderia e agência de turismo. Vamos supor, apenas supor, que isso tenha acontecido em 2020, no primeiro ano da pandemia de Covid-19, na paradisíaca Koh Phangan, e que após ter passado no teste, eu e o sujeitinho tailandês supostamente assinamos um contrato de três meses por uma Honda PCX 150. Ah, e vamos supor, apenas supor, que certa feita fui parado pela polícia tailandesa, que não pediu documentos, mas quis olhar minha mochila supostamente em busca de drogas – e evidentemente (digo, supostamente) fui liberado. Vamos supor, apenas supor, que neste suposto dia lembrei de algo que o sujeitinho tailandês supostamente havia me dito: “use sempre capacete e você não terá problemas.”
Vamos supor então que, desde o suposto episódio com o sujeitinho tailandês dono de uma locadora de motocicletas que também funciona como restaurante, lavanderia e agência de turismo, nunca tive problemas dirigindo motinhos envenenadas sem habilitação pelo Sudeste Asiático entre algumas idas e vindas por Tailândia, Indonésia e Vietnã.
2.
O rapaz da locadora consegue um lugar para mim numa van que parte da Ópera de Hanói com destino a Cao Bang às 6 da manhã do dia seguinte, o que significa uma noite de despedida na capital vietnamita. Faz 40 graus, de modo que passo o resto da tarde de cueca afundado na cama do hotel curtindo o ar condicionado. Quando a noite cai, peço um mototáxi até a Ta Hien Street, popularmente conhecida como Beer Street, a Rua da Cerveja – que durante o período colonial francês (sim, os desgraçados estiveram aqui) era chamada de Rue Géraudm –, uma espécie de Khao San Road de Bangkok, mas em Hanói, onde você beberá a cerveja local por 50 centavos de dólar sentado num banquinho de plástico na calçada; mas não só, no fim da noite, após algumas cervejas, tomará a questionável decisão de tatuar um banquinho de plástico no antebraço direito.
3.
Devo dizer que viajar de ônibus, vans ou semelhantes pelo Sudeste Asiático costuma ser algo bem confortável, veículos novos, bancos de couro, ar condicionado no talo, em algumas viagens serviço de bordo (!), mas isso eu não esperava: cada poltrona é também uma dessas cadeiras de massagem (!) que vemos em aeroportos, cheia de botões e modos de relaxamento, de modo que chego extremamente relaxado em Cao Bang mesmo após seis horas na estrada.
Largo minhas mochilas (uma de 50 litros com roupas e itens que não podem ser despachados; outra menor, a de ataque, com cada vez mais equipamentos – laptop, Kindle, câmera, microfones, tripé, fones de ouvido e muitos cabos) no simpático hotel em Cao Bang (a dona é uma Senhorinha Que Não Fala Inglês e Interage Comigo Através do Google Tradutor; “Brasil? Você está longe de casa”, ela dita em vietnamita para o aplicativo que traduz em inglês) e sigo para a Locadora de Motocicletas Mais Bem Avaliada da Cidade de Acordo com o Google Maps.
“Pretendo ir até Ban Gioc, na fronteira com a China, você acha que preciso de uma moto semiautomática? Talvez a Yamaha PG-1.” – pergunto para a atendente da Locadora de Motocicletas Mais Bem Avaliada da Cidade de Acordo com o Google Maps.
“Na minha opinião, a Airblade 125cc é melhor. Ela é automática.”
“Ok, vou ficar com ela.”
“São 236.000 VND1 por dia. Nesse preço está incluso um capacete, um suporte para o celular, cordas para você amarrar sua mochila e um saco plástico para você guardar seus pertences em caso de chuva. O combustível não está incluso. Há um posto de gasolina no final da rua.”
Na saída da Locadora de Motocicletas Mais Bem Avaliada da Cidade de Acordo com o Google Maps, um rapaz vietnamita fala algo comigo que finjo entender; sorrio e aceno; ele acena de volta.
4.
Volto ao simpático hotel para pegar minha mochila de ataque e a Senhorinha Que Não Fala Inglês e Interage Comigo Através do Google Tradutor dita em vietnamita “onde você está indo?”, mostro uma foto da God’s Eye Mountain, ela sorri e faz um sinal de positivo.
No posto de gasolina, enquanto a frentista abastece minha Airblade 125cc, um rapaz puxa assunto em inglês – o mesmo rapaz que falou algo comigo na Locadora de Motocicletas Mais Bem Avaliada da Cidade de Acordo com o Google Maps e fingi entender; ele também quer saber para onde estou indo.
“Estou indo para a God’s Eye Mountain.”
“Também estou indo para lá. Você quer ir comigo?”
“Claro. Só preciso comer algo antes.”
“A gente come algo na estrada.”
E foi assim que, após abastecer a Airblade 125cc, segui um vietnamita que acabara de conhecer por estradas embrenhadas em montanhas, arrozais, riachos e vilarejos num calor de 40 graus.
5.
“Qual o sentimento de viajar de moto pelo norte do Vietnã?”, pergunto para o ChatGPT.
“Acho que o sentimento é a parte mais difícil de descrever — e justamente a que faz tanta gente voltar falando dessa viagem anos depois.” – ele responde. “Há uma mistura de liberdade e vulnerabilidade. Você acorda cedo em uma vila pequena, veste a jaqueta ainda com o frio da manhã, liga a moto e, poucos minutos depois, já está cercado por montanhas enormes. Não há trânsito, nem prédios altos. Só o som do motor, do vento e, às vezes, o canto de um galo ou o barulho de um riacho lá embaixo.”
“Você já SENTIU isso?”
“Não. Eu não sinto esse tipo de experiência da forma que uma pessoa sente. Eu posso descrever esses sentimentos porque fui treinado com muitos relatos de viajantes, livros, diários, entrevistas e textos que falam sobre esse tipo de viagem. Há padrões que aparecem repetidamente: a sensação de liberdade, a atenção total à estrada, o encanto diante da paisagem, a simplicidade dos encontros, a mudança de ritmo. Mas isso é diferente de ter estado lá. Há uma diferença importante entre saber descrever o frio da manhã numa estrada de montanha e realmente sentir esse frio atravessar a roupa quando você para para olhar um vale. Eu consigo ajudar a colocar essa experiência em palavras; quem vive a experiência é a pessoa.”
6.
Numa coisa o ChatGPT acertou: jamais experimentei tamanha liberdade quanto dirigir uma motocicleta alugada pelo norte do Vietnã.
7.
A viagem de Cao Bang até a God’s Eye Mountain dura cerca de 40 minutos. Exceto por uma ou outra curva mais sinuosa, o trajeto é tranquilo – difícil é conseguir se concentrar na estrada com tantos estímulos visuais. Meu plano inicial era parar sempre que algo me chamasse a atenção, gravar alguns takes para a PassageiroTV, mas não queria perder meu novo amigo vietnamita – cujo nome, nessa altura, ainda era um mistério – de vista. Ele para próximo a uma espécie de mercearia improvisada no topo de um morro e indica onde devo estacionar a Airblade 125cc.
“Meu nome é Matheus, a propósito.”
“Vũ2.”
Ele tira um drone da mochila.
“Vou fazer umas imagens da montanha, você se importa? Podemos sentar ali.” – ele aponta para uma miradouro com vista para a God’s Eye Mountain.
“Tranquilo. Vou comer algo.” – compro duas bananas e um café.
8.
Tive a sorte e o privilégio – e você pode inserir qualquer outro adjetivo do tipo aqui – de, nos meus 37 anos de vida, ter conhecido quase 40 países. Já vi muita coisa, já vivi muita coisa. Isso foi diferente. Estar sentado ali, diante da God’s Eye Mountain, numa das paisagens mais incríveis que meus olhos já viram, na companhia de um vietnamita que conheci num posto de gasolina, cada um abastecendo sua motocicleta alugada, quando diabos minha vida se tornou isso? Eu nasci no interior de Santa Catarina. Pessoas como eu geralmente não tem a chance de fazer esse tipo de coisa.
“Você mora aqui?” – pergunto.
“Mais ou menos. Minha família é daqui, passo uns meses do ano em Cao Bang, mas nasci e moro em Hanói.”
“Do quê você mais gosta no Vietnã?”
“Das pessoas.”
9.
No caminho de volta para Cao Bang, Vũ faz sinal para que eu encoste na beira da estrada.
“Você ainda está com fome?”
“Sim.”
“Vamos pegar um desvio e você estaciona quando eu fizer sinal.”
O lugar que Vũ escolhe para o nosso banquete é uma barraquinha dessas de estrada. Vejo um animal despedaçado e fico na dúvida da espécie.
“É um cachorro?”
“Não! É um porco. Você quer comer um cachorro? Conheço um lugar aqui perto.”
“Não! Pelo amor de Deus, não.”
Vũ ri alto.
O porco é servido em pedaços crocantes, como se fosse um Doritos. Há também um líquido meio gosmento que serve como molho.
“O que é isso?” – pergunto sobre o molho.
“É feito com as estranhas do porco.”
Durante a próxima meia hora, Vũ e eu degustaríamos pedaços do pobre porco embebidos em suas próprias entranhas, numa das melhores refeições que tive em minha vida – por cerca de 5 reais; Vũ insiste para pagar a conta.
“O que você vai fazer amanhã?” – Vũ pergunta.
“Vou para as Cataratas de Ban Gioc, na fronteira com a China.”
“Uma pena que volto para Hanói amanhã. Aproveite. As Cataratas são lindas, mas o caminho é ainda mais bonito.”
10.
São cerca de duas horas de viagem até as Cataratas de Ban Gioc. Acordo antes das seis da manhã. Uma chuva fina cai em Cao Bang. Coloco um casaco corta-vento e pego a estrada. A chuva aperta. Paro numa cafeteria e peço um café com ovo – não um café e um ovo, mas um café com ovo, uma especiaria vietnamita.
A chuva dá uma trégua perto das oito e volto para a estrada. Vũ tinha razão. O caminho é bonito. Comprei fones de ouvido com fio especialmente para essa viagem. Estou ouvindo Solitude, do Black Sabbath, e sentindo uma paz que jamais senti. Conforme avanço pelas montanhas, sinto o vento frio. O ChatGPT acertou mais uma vez: “(…)Há uma diferença importante entre saber descrever o frio da manhã numa estrada de montanha e realmente sentir esse frio atravessar a roupa quando você para para olhar um vale.”
11.
Chego nas Cataratas pouco antes do meio-dia – paro algumas vezes para fotografar, gravar vídeos e tomar água. No caminho, encontro alguns ocidentais na garupa de easy riders, vietnamitas contratados para fazer o percurso com turistas que não sentem segurança em pilotar suas próprias motocicletas. Nas vezes em que cruzo com esse grupos, acelero a Airblade 125cc o máximo que posso para ultrapassá-los, sempre fazendo contato visual, como se fosse Dennis Hopper, o Easy Rider original. Em uma das ultrapassagens, um turista sorri e faz um sinal de positivo. Nos fones de ouvido, Welcome to the Jungle, do Guns N’Roses.
12.
Caso você já tenha visitado as Cataratas do Iguaçu ou alguma cachoeira, sabe que a melhor vista é de longe; chegar perto demais significa ficar completamente molhado e não conseguir contemplar todo o esplendor da queda d’água. Estaciono a Airblade 125cc no ponto mais alto da estrada e, além das Cataratas, vejo a China no horizonte; caracteres chineses em prédios, placas e num ônibus que sobe uma colina; vultos de pessoinhas chinesas; Vietnã e China divididos por um rio.
13.
Pego a estrada de volta para Cao Bang, tenho até o fim da tarde para devolver a Airblade 125cc na Locadora de Motocicletas Mais Bem Avaliada da Cidade de Acordo com o Google Maps, de modo que dirijo sem pressa. Um vietnamita acena para mim no que parece ser um restaurante, “comida?”, ele pergunta, “comida!”, respondo, e mando ver numa cumbuca de pho, uma sopa de arroz, macarrão, fatias finas de porco e especiarias.
Resolvo desligar o Google Maps e entrar num vilarejo. Passo por uma criação de búfalos, outra de patos, uma festa de aniversário, uma arena (?) de rinha de galos; recebo sorrisos, acenos, vietnamitas brindam suas cervejas no ar; crianças me dão oi, chamam seus pais para mostrar o estrangeiro, perguntam de onde sou, será que já haviam visto um ocidental pessoalmente?, me pergunto.
Estaciono na beira da estrada para fazer um autorretrato com a câmera e o tripé – a imagem que abre esse texto.
Três adolescentes em duas motocicletas passam buzinando, dão meia volta e perguntam se podem tirar uma foto comigo. Trocamos arrobas do Instagram, apertos de mão e abraços.
14.
Anthony Bourdain dizia que “viagens não são sempre bonitas, não são sempre confortáveis.”
Cruzar o norte do Vietnã numa moto não foi exatamente confortável – chuva, vento, frio, calor extremo; tudo às vezes no mesmo dia –, mas foi bonito; ah, se foi.
E aí tem os vietnamitas.
Bourdain também dizia que “a jornada te muda; ela deveria te mudar. Ela deixa marcas na sua memória, na sua consciência, no seu coração e no seu corpo. Você leva algo com você. Com sorte, você deixa algo para trás.”
A ideia era viajar completamente sozinho, mas não foi possível; em cada lugar que parei a Airblade 125cc, seja para abastecer – a máquina ou o bucho – ou contemplar a paisagem, fiz amigos, ganhei sorrisos, “hello”, “where are you from?”, “what’s your name?”
Algo vai comigo, mas algo ficou.
🧠 Para ler, assistir e ouvir
Perdemos a Copa e a criatividade; a teoria do pai da Yna Marson é uma boa forma de repensarmos a nossa relação com a autenticidade.
IA não é anti ético, é cafona; esse texto do Ronald Rios.
Assisti The Drama, o filme da A24 com a Zendaya e o Robert Pattinson e gostei bastante.
Essa viagem de moto me lembrou o documentário de quando um recém-aposentado David Beckham cruzou a Amazônia de moto (!) com um grupo de amigos durante a Copa do Mundo de 2014. É da BBC e chama Into The Unknown – tinha na Netflix até um tempo atrás, mas acho que está fora do catálogo dos principais streamings
– porém que é malandro acha fácil no Stremio.Yellow Fang, a banda das divas do shoegaze tailandês, está de volta com o single ฟื้น (Athithan).
Curti bastante Escrito en agua, álbum novo dos mexicanos do Diles que no me maten.
💰 Mentoria Monetize
A Mentoria Monetize é um programa individual e personalizado para quem tem um projeto (ou uma ideia de projeto) e busca monetizar o seu conhecimento/conteúdo.
Se você é familiarizado com o meu trabalho, já deve ter percebido que não tolero bullshitagem, de modo que durante a Mentoria buscaremos, juntos, formas realistas para você ganhar dinheiro na internet sem precisar romper com os seus valores pessoais.
Durante o programa você terá acesso ao meu cérebro; e às estratégias que utilizo e/ou já utilizei para vender o meu conhecimento/conteúdo na internet.
Mais que isso: verá que existe espaço para todo mundo, que seu nicho não está saturado, que você não precisa ser influenciador para ganhar dinheiro na internet, que você não precisa fazer o que todo mundo está fazendo e, principalmente, que existe vida online além do Tik Tok e do Instagram.
E, se você me permite um clichê, vou te ajudar a pensar fora da caixa.
passageiro.news / passageiro.tv / passageiro.club / passageiro.academy
***
Equivalente a 9 dólares ou aproximadamente 46 reais.
Pronuncia-se “Vô”.










Ler esse texto foi como viajar junto, amei muito!