#139 – O segredo para fazer as coisas é fazê-las
Kareem Rahma e o 'faça você mesmo'; como era trabalhar com Anthony Bourdain; a volta da PassageiroTV!
🎧 Para ler ouvindo1: Solitude Is Bliss, por Tame Impala.
📍 Bangkok, Tailândia
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
📺 YouTubers são as novas estrelas de TV
Você provavelmente já o viu por aí. Talvez no Instagram em seu SubwayTakes, entrevistando nova-iorquinos com um microfone preso a um cartão de metrô; talvez no Tik Tok em Keep The Meter Running, pedindo a um motorista de táxi o leve ao seu lugar favorito.
Kareem Rahma (comediante, ator, apresentador, a lista é longa…) costumava manter um post-it em seu escritório com a frase “o segredo para fazer as coisas é fazê-las.”
Aos 33, abandonou uma carreira na mídia (trabalhou na VICE e no The New York Times) na esperança de se tornar um comediante famoso. Mergulhou em cursos de improvisação, stand-up e roteiro. Gastou 14 mil dólares em câmeras de vídeo.
Agora, aos 39, após ter explodido na internet, confidenciou ao Wall Street Journal que ainda mal sabe usar as câmeras, “mas as coisas começaram a acontecer quando eu as comprei.”
Ele testou alguns conceitos antes de acertar em cheio com SubwayTakes e insiste na entrevista para o WSF que não está fazendo nada mais complicado do que criar programas de tv que as pessoas gostam de assistir – independentemente de onde apareçam ou da duração dos episódios.
“Isto é uma tela de tv, mas, neste momento, ninguém está fazendo televisão para ela”, diz ele, apontando para o celular.
O sucesso nas redes sociais atraiu a atenção da gigante CNN, que tentou levar o Keep The Meter Running para a tv; foram sete meses de negociações e reuniões até Kareem desistir do acordo e levar seu programa para o… YouTube.
“Passei por toda aquela enrolação da televisão, e foi um desastre”, disse ao Deadline. “Não quero mais ficar esperando. Abandonei o acordo e decidi fazer isso de forma independente no YouTube.”
Ainda segundo ele, ter levado o programa para o YouTube lhe dará mais flexibilidade e liberdade criativa do que teria na CNN, que exigia que cada episódio tivesse 45 minutos.
“Alguns episódios têm 45 minutos, outros têm 12 — não estamos realmente preocupados em ter uma duração exata. O mais importante é a história e o que podemos fazer de melhor para o público.
🍜 Os bastidores dos programas televisivos de Anthony Bourdain
“Um dos segredos do sucesso de Tony era uma atitude destemida de arriscar tudo, que às vezes era indistinguível da autossabotagem. Era uma estratégia arrojada que, aparentemente do nada, lhe rendeu um livro de memórias que se tornou um best-seller e uma série de tv aclamada. Porém, depois da segunda temporada de A Cook’s Tour, o destino deu sinais de que queria pagar para ver e desmascarar Tony. Quando o canal Food Network decidiu cortar destinos internacionais para privilegiar os churrascos domésticos, Tony, em uma decisão que deixou muita gente perplexa, preferiu desistir em vez de estrelar um programa que ele não queria fazer. Tony costumava dizer: ´Todo mundo que está na tv tem medo de não aparecer mais na tv’. Mas Tony não. Chris e Lydia, os produtores de A Cook’s Tour, passaram mais ou menos um ano tentando vender a ideia de um programa de viagens e comida apresentado por Tony, mas a PBS e o canal A&E, além de todos os outros canais, recusaram. Justamente quando Tony já tinha feito as pazes com o fim de sua carreira televisiva, o Travel Channel arranjou dinheiro para filmar três pilotos. Assim, de repente, ele estava de volta à tv. Intitulado Sem reservas, desta vez o programa levaria um passo adiante as ideias por trás de A Cook’s Tour, em episódios com o dobro da duração, um orçamento maior e um itinerário de viagem mais ambicioso.”
As aspas acima são do excelente Em maus lençóis: mundo afora e nos bastidores com Anthony Bourdain, livro de Tom Vitale, ex-diretor e produtor dos programas Sem reservas (Travel Channel) e Lugares desconhecidos (CNN).
Além de histórias e curiosidades das viagens em si, a obra traz bastidores interessantes sobre acordos televisivos e a ida de Bourdain para a mesma CNN que Kareem Rahma esnobou 14 anos depois:
“‘Porra, você não pode sequer respirar uma palavra do que vou te contar’, Tony anunciou assim que me viu esperando por ele na calçada no aeroporto de Santo Domingo. Seguindo seu ritual pós-voo, ele acendeu um Marlboro vermelho, dando uma longa tragada – quase metade do cigarro – antes de continuar: ‘Se a notícia vazar, o negócio todo pode ir pra cucuia. Acabo de chegar de uma reunião. O negócio é tão secreto que eles me fizeram subir pela porra do elevador de carga. Foi sigilo total, uma parada tipo operação de espionagem!’.
Tony desatou a falar enquanto seus olhos dardejavam de um lado para o outro, um olho ligeiramente maior do que o outro, o que lhe dava a aparência de um esquilo sob o efeito de anfetaminas. Era uma saudação incomum, mesmo para o previsivelmente imprevisível Anthony Bourdain.
‘A gente já pode dar tchauzinho pra aqueles idiotas de merda do Travel Channel… Já era o Sem reservas…’, disse Tony, terminando o cigarro e jogando a guimba no chão.
Fazendo força para acompanhar, acendi um também e percebi que minhas mãos estavam tremendo.
‘Porra, parabéns, Tom, a gente vai levar a porra do programa pra porra da CNN! Caralho, dá pra acreditar nisso?!’
Sete meses depois, em novembro de 2012, aterrissamos na Birmânia, ou Mianmar, dependendo da pessoa com quem você está falando, para filmar o episódio piloto do programa Lugares desconhecidos. É claro que a vida real nunca propicia inícios bem definidos. No mínimo, raramente os reconhecemos como começos nítidos. Mas, olhando para trás, nossa viagem para a Birmânia parece um lugar tão bom quanto qualquer outro para começar a contar esta história. Na época eu tinha 32 anos e havia passado os últimos seis deles na estrada com Tony, sendo pago para matar o tempo e viajar planeta afora comendo e bebendo. Ênfase no ‘bebendo’. Talvez fosse por isso que ainda não conseguia acreditar que a CNN tinha dado a Tony – um cara da contracultura, um ex-viciado em heroína na casa dos cinquenta anos e mais ou menos incontrolável – um cheque em branco para ir aonde bem quisesse e fazer basicamente o que lhe desse na telha. A ideia me parecia uma loucura, e eu era o diretor do programa. Pelos menos as ordens de nossos novos patrões da televisão eram simples: ‘Apenas continuem fazendo o que vocês já estão fazendo’, citando o episódio de Sem reservas filmado em Moçambique, uma mescla de história, cultura e personalidade, como um exemplo do que os executivos do canal esperavam que entregássemos. Mas, como Tony era Tony, não se contentaria em repetir o que tinha funcionado na semana anterior, quanto mais na temporada anterior, e muito menos no canal anterior.”
Anthony Bourdain tirou a própria vida em 2018 num quarto de hotel francês durante as gravações de um episódio de Lugares desconhecidos. Em Miserável no paraíso: a vida de Anthony Bourdain, biografia polêmica e não autorizada do chef, apresentador e escritor, o jornalista Charles Leerhsen expõe diversas mensagens íntimas de Bourdain, incluindo uma para sua ex-esposa em que reclama do seu “trabalho dos sonhos”:
“Eu odeio meus fãs. Eu odeio ser famoso. Eu odeio o meu trabalho. Eu estou sozinho e vivendo em constante incerteza.”
🎥 A PassageiroTV está de volta
Há pouco mais de dois anos uma produtora, na vibe Chris e Lydia, os produtores de A Cook’s Tour tentando vender o programa de Anthony Bourdain, me procurou para uma adaptação televisiva de Nômade Digital; eu viajaria o mundo entrevistando outros nômades digitais brasileiros. O projeto foi oferecido para diversos canais e serviços de streaming; houve certo interesse, mas na hora do vamo ver ninguém topou financiar a empreitada.
Cheguei a ter certa esperança, queria que a parada acontecesse. Seria legal, penso. Ou não. Ser pago para viajar o mundo é o “trabalho dos sonhos” de muita gente, mas de certa forma já faço isso; e, para ser sincero, não sei se eu teria saco para tantas conversas sobre nomadismo digital. Não me entendam mal, mas o livro foi escrito em 2018, publicado em 2019, muita coisa aconteceu na minha vida de lá para cá e o assunto já não me interessa tanto quanto já interessou. Viajar? Sigo amando viajar. Há umas semanas comprei uma passagem só de ida para o Sudeste Asiático e escrevo essas linhas de Bangkok, mas nomadismo digital, não; o que me interessa no momento é explorar, é ser curioso, é interagir com os locais (e não com os nômades digitais), é comer algo considerado “exótico” aos olhares do Ocidente num restaurante sem menu em inglês; isso sim, ah, isso tenho interesse. E é por isso que a PassageiroTV está de volta: inspirado no “faça você mesmo” de Kareem Rahma, mas principalmente no jeito “mais ou menos incontrolável” de Anthony Bourdain (duvido que eu duraria mais que uma temporada na tv tradicional), tenho gravado vlogs, uns com 16 minutos, outros com 8, quem sabe um dia alguns com 40, das minhas explorações pelo mundo. Tipo esse em que como um espetinho de cobra na rua mais maluca de Bangkok. Ainda há muito o que melhorar, mas é fazendo que se aprende.
E aqui vai um pedido: assinem o canal, deixem um like, um comentário, esse tipo de coisa. Apoiem os profissionais independentes. Caso a PassageiroTV cresça, garanto que não farei publi de bets – assim como nunca fiz em minhas outras redes sociais.
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