#138 – Celebrando o legado de Anthony Bourdain (do único jeito possível)
O Padroeiro dos Escritores & Viajantes Desajustados completaria 70 anos no próximo mês. Em sua memória, este Passageiro cairá na estrada. De novo.
🎧 Para ler ouvindo1: Down on the Street, por The Stooges.
📍 Paris, França
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
1.
Na Folha de S.Paulo, em abril de 2022, escrevi:
Após supostamente ter explorado a ilha tailandesa queridinha dos nômades digitais em uma motinho envenenada, desembarco no Aeroporto Internacional de Noi Bai em Hanói, Vietnã. É minha primeira vez no país e as expectativas estão lá em cima.
Já no táxi, observo pela janela a capital vietnamita com olhos de criança. Luzes estroboscópicas e painéis de neon no horizonte fazem Hanói parecer mais com Blade Runner (1982) do que com Apocalypse Now (1979) – dirigida por Wong Kar-wai e com trilha sonora de Angelo Badalamenti.
Pago a corrida com notas cheias de zeros e, no histórico bairro Old Quarter, coração de Hanói, finalmente sinto o que o saudoso chef, escritor e apresentador Anthony Bourdain sentiu quando desembarcou pela primeira vez no país pelo qual era apaixonado: os cheiros. Do escapamento das motos, das cumbucas fervilhantes de phở e bún chả, das velas e dos incensos. Amor à primeira cheirada.
2.
Também em abril de 2022, em Passageiro, o livro com as histórias das minhas andanças pelo mundo que um dia verá a luz do sol, escrevi:
Hanói, abril de 2022.
Querido Tony,
Você tinha razão sobre o Vietnã. A comida, a cultura, as paisagens idílicas, os sons, o cheiro. Ah, o cheiro. Graham Greene também tinha razão quando escreveu que “quando chegamos ao Vietnã entendemos tudo em questão de minutos, mas o resto tem que ser vivido”. Escrevo estas linhas diretamente de um apartamento no coração do Old Quarter em Hanói. Da janela consigo ver um vietnamita, baixinho como a maioria dos vietnamitas, vendendo partes de um porco em uma banca improvisada entre as várias motonetas estacionadas na calçada. Faz quase 40 graus lá fora e o sujeitinho está vendendo as mesmas partes do bicho desde que cheguei aqui – cinco dias atrás. Talvez esteja há mais tempo. Patas, tornozelos, cabeça e todo o tipo de entranha. O mesmo porco. As. Mesmas. Partes. Quase 40 graus lá fora. O tipo de cena que você gostaria, imagino.
Está tocando The End, do The Doors. Sei que é uma das suas músicas favoritas. Estou com ela na cabeça desde que assisti Apocalypse Now semana passada, antes de vir para Hanói. Aliás, eu deveria ter vindo para o Vietnã em 2020, você sabia? Estava em Chiang Mai, me deliciando com a comida do norte da Tailândia, com passagens compradas para Da Nang, quando a pandemia do novo coronavírus começou e as fronteiras internacionais foram fechadas. Dois meses na Tailândia viraram um exílio de quase um ano. Nunca comi tão bem na minha vida. Khao pad, khao soi, tom yam e pad thai, muito pad thai.
Você partiu antes que um vírus filho da puta nos tirasse, entre outras coisas, a liberdade de ir e vir. Nos vimos trancados em cubículos lidando com os nossos próprios demônios, tendo crises existenciais, abusando do álcool. Perdemos conhecidos, perdemos gente querida, vimos governos negacionistas deixando o seu povo à própria sorte. Penso em como seria a sua vida com as fronteiras fechadas. Você utilizaria o seu novo tempo livre para escrever um romance policial? Aproveitaria para passar mais tempo com a sua filha? Tiraria algo de bom desse período? Lembro daquele episódio de No Reservations gravado em 2009, em uma das várias vezes em que esteve por estes lados, em que você fala sobre largar a vida de celebridade da TV e se mudar para uma propriedade rural no Vietnã. Viver uma vida simples com a sua família longe dos holofotes de que você, antes de partir, parecia não mais suportar. Como se demitir do melhor emprego do mundo, não é mesmo?
Assim que cheguei em Hanói almocei no Bún chả Hương Liên, aquele restaurante em que você dividiu uma refeição com Barack Obama em um episódio de Parts Unknown em 2016. Em uma entrevista para o The New Yorker, meses após o famoso almoço com o então presidente dos Estados Unidos, você se pergunta como estará o restaurante agora. Pois bem, o lugar conseguiu aproveitar os seus quinze minutos de fama. As paredes agora são decoradas com fotos do encontro entre vocês e por 120 mil dongs vietnamitas é possível pedir o “Combo Obama” – bún chả, um rolinho primavera de frutos do mar e uma cerveja.
Do restaurante segui para o Templo da Literatura, construído em 1070 em homenagem ao filósofo chinês Confúcio. Não sei se você chegou a visitá-lo. Dizem que escritores costumam ir lá antes do lançamento de um livro na esperança de que ele se torne um best-seller. No alto da hipocrisia do meu ateísmo, aproveitei a visita para fazer uma prece no Altar de Confúcio. Sou de família católica, fiz a Primeira Comunhão, o Crisma, pensei em me tornar Coroinha, mas em algum momento da adolescência deixei de acreditar em algo maior. Acho que é mais fácil viver assim. Na dúvida sobre a qual Deus endereçar a oração, dirigi meus pensamentos a você: Anthony Bourdain, o Padroeiro dos Escritores & Viajantes Desajustados. Confesso que saí do Templo edificado, imaginando que depois dessa prece o livro que estou escrevendo certamente será um sucesso.
PS: Bún chả é bom para caralho! Obrigado pela dica!
Com amor,
Matheus
3.
O novaiorquino Anthony Michael Bourdain nasceu em 25 de junho de 1956. Em 08 de junho de 2018, tirou a própria vida num quarto de hotel em Kaysersberg, na França. Desde 2019, fãs ao redor do mundo comemoram o Bourdain Day, o Dia de Anthony Bourdain, na data de seu nascimento. O “feriado” foi idelizado pelos chefs Eric Ripert e José Andrés, amigos de Bourdain, como uma forma de celebrar o seu legado; é um dia para tomar negroni em sua homenagem, comer algo de origem duvidosa numa barraquinha de rua, viajar o mais longe que você conseguir ou explorar um novo bairro na sua própria cidade; é dia também de ler seus livros (aqui tem uma lista com 4 livros para você conhecer Anthony Bourdain) e assistir seus programas de TV (todos os episódios de A Cook’s Tour e Parts Unknown estão disponíveis gratuitamente no YouTube).
Para celebrar o legado e os 70 anos de Anthony Bourdain, o querido Tony, este Passageiro embarcará em uma nova aventura pelo Sudeste Asiático: de 25 de maio (meu aniversário) a 25 de junho (Bourdain Day), publicarei um vlog por dia na PassageiroTV.
Assim como Tony quando deixou Nova York para gravar A Cook’s Tour, seu primeiro programa de TV, estou deixando Paris “na esperança de ter algumas epifanias ao redor do mundo. Estou procurando extremos de emoção e experiência. Vou tentar qualquer coisa. Vou arriscar tudo. Eu não tenho nada a perder.”
Nos vemos em Bangkok!
🎥 Anteriormente na PassageiroTV…
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