#129 – A balada do que poderia ter sido
Baseado em fatos reais.
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Amanhã (29), 19h30 de Brasília, tenho a honra de receber Fabiane Guimarães, autora da newsletter Tristezas de estimação e dos livros Apague a luz se for chorar e Como se fosse um monstro, para um papo sobre a escrita e a publicação de livros. Para participar basta assinar um dos planos do Clube Passageiro.
Não poderá participar ao vivo? Relaxa, o encontro ficará gravado.
🎧 Para ler ouvindo1: 505 – Live e Do Me A Favour – Live, por Arctic Monkeys.
📍 Entre Roma e Florianópolis
✍️ por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
1.
Foi L. quem me apresentou os Arctic Monkeys; não de maneira formal, devo dizer. O ano era 2009, a rede social o Orkut, de modo que em um dos campos do Orkut era possível embedar vídeos do YouTube; e lá estava, no perfil de L. no Orkut, vídeos dessa banda, os Arctic Monkeys, da cidade de Sheffield, na Inglaterra, tocando um indie garageiro na Sala Razzmatazz em Barcelona, na Espanha, em 2007.
Lembro também do porquê estava eu, lá em 2009, fuçando o perfil de L. no Orkut; e lembro, ainda, da sua foto em preto branco; e da primeira troca de scraps, “oi, caloura!”, “oi haha :D”, e eu me sentindo ridículo por usar o termo “caloura” e ela confirmando anos depois que achou isso ridículo. Ambos cursávamos Relações Internacionais na UNISUL de Tubarão, Santa Catarina, ela no primeiro semestre, eu no quinto (de oito), ela caloura (!), eu veterano, eu e os demais veteranos assistindo à apresentação do transdisciplinar2 da turma de L., o delineador carregado em seus olhos no estilo emo dos anos 2000, o suéter com listras horizontais cinzas e pretas, as mangas do suéter tentando esconder as mãos mas deixando à mostra o esmalte roxo, a calça preta colada, o All Star também roxo de cano alto (para combinar com as unhas?), eu comentando com J. que “ainda vou namorar essa menina”, o primeiro beijo no falecido Bali Hai em Garopaba (2009), eu namorando essa menina (2010), eu noivando com essa menina (2014), eu casando com essa menina (2016), eu divorciando dessa menina (2019); uma década entre o primeiro e o último beijo.
2.
O fotógrafo nômade tcheco-francês Josef Koudelka disse certa vez nunca ficar mais de três meses num país porque tem “interesse em ver” e, se fica mais tempo, fica cego. Sendo eu hoje portador de um titre de séjour3 posso, até janeiro de 2029, circular pelo Espaço Schengen4 sem grandes burocracias, sem perguntas na imigração, sem me preocupar com os três meses do visto de turista para portadores do passaporte brasileiro, mas nem sempre foi assim, de modo que após uma temporada em Roma flanando e bebendo aperol spritz por Trastevere como se fossemos Jep Gambardella em A grande beleza, L. e eu decidimos em um agora longínquo 2018 que nosso futuro seria na capital italiana.
Em Santa Catarina após os três meses na Itália, trazendo na mala certa angústia por não poder ficar mais tempo devido aos nossos passaportes brasileiros, ouço atentamente um Amigo Startupeiro falar sobre uma metodologia chamada PEP (de Planejamento Estratégico Pessoal). Ele convida L. e eu para sermos cobaias de seu experimento e numa manhã qualquer do verão catarinense estamos criando nossa “cesta dos sonhos”, todas as coisas que gostaríamos de realizar nos próximos dez anos, “mudança para Roma; um ano”, “lançar meu livro sobre nomadismo digital; um ano”, “lançar meu livro de crônicas; cinco anos”, “lançar meu primeiro romance; dez anos”, “escrever crônicas para algum jornal de grande circulação; um ano”, “viver de direitos autorais; dez anos”, “ter alguma experiência de isolamento em algum lugar remoto (uma cabana numa montanha, quem sabe); três anos”, “comprar um apartamento em Roma; dez anos”.
3.
De volta à Roma e ao Espaço Schengen no começo de 2019, visito uma exposição sobre a carreira do ator Marcello Mastroianni no museu do Ara Pacis; dessa vez, no entanto, flano no singular; L. pede um tempo para si.
No fim da tarde, no caminho entre o museu e aquele que seria nosso derradeiro Airbnb, paro numa banca e vejo uma revista com Alex Turner, dos Arctic Monkeys, na capa. “Uma boa decoração para o nosso apartamento”, penso antes de comprar um exemplar.
No fim da noite, em meio às ruínas romanas, o divórcio.
L. nunca viu a revista com Alex Turner na capa.
4.
Em um interminável 2019, após incursões solitárias pelo verão do Leste Europeu e noites brancas pela São Petersburgo de Dostoiévski, desembarco em São Paulo para dar check em um dos itens da minha “cesta dos sonhos”: lançar meu livro sobre nomadismo digital.
Após o lançamento, mais um check: alugo por uns meses uma cabana em um lugar remoto na Praia do Rosa, em Imbituba, Santa Catarina. Compro uma máquina de escrever com a pretensão de dar mais um check e escrever meu livro de crônicas, mas desisto da ideia e a máquina, assim como a revista com Alex Turner na capa, vira objeto de decoração na cabana.
É nessa cabana que recebo um áudio de onze minutos em que L. conta estar namorando.
5.
Já é quase 2020 quando convido meu Amigo Startupeiro & sua Esposa para conhecerem a cabana. Eles trazem dois baseados, mas nenhum isqueiro. O Amigo Startupeiro acende um dos baseados no fogão, “não sei tragar”, digo, ele tenta me ensinar, em vão. “Vou continuar na cerveja”, aviso.
“A máquina funciona?” – o Amigo Startupeiro pergunta.
“Sim. Comprei no Mercado Livre, está funcionando direitinho.”
“E aquele plano de morar em Roma agora que vocês terminaram?” – a Esposa pergunta.
“Acho que não me vejo mais morando lá. Não por agora, pelo menos.“ – dou um gole na cerveja. “Comprei uma passagem só de ida para a Tailândia.”
6.
2026 começa e alugo uma cabana no Rio Tavares, em Florianópolis, por uma semana. Preciso de um lugar bacana para gravar uns vídeos. Recupero a máquina de escrever na casa dos meus pais, em Imbituba, para usar como decoração. Dentro da capa protetora da máquina, a revista com Alex Turner na capa. Dentro da revista, uma carta escrita pelo Amigo Startupeiro cuja existência eu não recordava.

7.
Fico com o negócio da carta na cabeça.
Dias antes de encontrá-la dentro da revista com Alex Turner na capa, eu havia aprendido a tragar num baseado que você acendeu num fogão enquanto ouvíamos Arctic Monkeys.
Não resisto à ideia de escrever sobre, ainda que você tenha me pedido para não escrever sobre, “tu não vai escrever sobre isso na newsletter, né?”, e um poema nasce na mesma máquina em que o Amigo Startupeiro escreveu a carta.
Tento buscar algum sentido nessas coincidências, mas a verdade é que talvez Koudelka tenha razão: após quase três meses no Brasil acho que estou ficando cego. Talvez seja a fumaça. Talvez seja hora de comprar uma passagem só de ida para Roma.
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🧠 Um livro, um vídeo e uma música
Estou lendo Dor fantasma, do Rafael Gallo.
Meu amigo henriqueodi está de volta no YouTube com um vídeo incrível em que ele viaja por 4 países em 96 horas.
Os Arctic Monkeys também estão de volta com a bela Opening Night, faixa que faz parte de uma coletânea da War Child.
Você sabia que a newsletter tem uma playlist no Spotify com todas as músicas indicadas aqui? Pois é. A Rádio Passageiro é atualizada semanalmente.
O transdisciplinar era uma espécie de TCC em grupo que acontecia a cada fim de semestre e era comum assistirmos às apresentações das outras turmas.
Documento de identidade e autorização de residência para estrangeiros na França; funciona como um complemento ao visto de entrada, permitindo a permanência legal no país para estudo, trabalho, reagrupamento familiar, etc.
O Espaço Schengen é uma área de livre circulação composta por 29 países europeus que aboliram os controles nas suas fronteiras internas, permitindo viagens sem passaporte entre eles.






Muito bom! Vou pra Roma com minha namorada em abril. Vimos um lugar pra se hospedar em Trastevere, é legal ficar lá?
Isso está acontecendo comigo exatamente agora.
Me pergunto se um dia vou sentir a necessidade de ficar quieta, em um lugar só, por um tempo maior, conhecer bem a dona do sacolão e os vizinhos e as pessoas que caminham de manhã na praia.
Me parece que ainda não.
A vontade é a de sentir a vida nos lugares, deixar que os aromas, cores, sotaques e sabores me atravessem no corpo.
E para isso, continuo a flanar.
Que edição gostosa de ler! 🙏🏻🥰