#136 – Diários da Índia (parte 2/4)
Nova Délhi; fronteiras e religiões; e homens; e amizades improváveis.
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Na próxima quarta-feira (06), 18h30 de Brasília, recebo Luri Ribeiro para um papo sobre como começar no Substack.
Não poderá participar ao vivo? Relaxa, o encontro ficará gravado.
🎧 Para ler ouvindo1: Ishq, por Donn Bhat.
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
🇮🇳 Leia a primeira parte dos Diários da Índia neste link.
NOVA DÉLHI
“Eu imploro às pessoas que viajem2.
Se você não tem um passaporte, providencie um.
Espere pelo verão, arrume sua mochila e vá para Nova Délhi, ou para Ho Chi Minh, ou para Bangkok, ou para o Quênia, ou para qualquer outro lugar que você sempre quis visitar.
Se impressione, coma algo diferente, conheça estranhos, viva uma aventura, seja cuidadoso.
Volte para casa e você verá o seu país, a sua cidade, a sua rua, de uma maneira diferente, você verá o seu presidente de uma maneira diferente, não importa quem seja.
Música, cultura, comida, água. Seus banhos se tornarão mais curtos.
Você terá um senso maior do que globalização realmente significa. Spoiler: não é o que a mídia fala por aí. Sinto muito.
Você verá que aquecimento global é algo real. Você conhecerá pessoas em que seus dias consistem puramente em andar quinze quilômetros diários para conseguir quatro baldes de água.
Você aprenderá que há lições na vida que não podem ser aprendidas, a menos que você pegue um voo para o outro lado do mundo.
Você entenderá que ser humilde não te faz melhor que ninguém, mas te faz diferente.
Viaje, descubra, explore e quebre barreiras geográficas.”
(Autor desconhecido, mas poderia ser eu – ou o Anthony Bourdain)
1.
Devo confessar que, talvez influenciado pela narrativa de YouTubers e (des)influenciadores digitais sobre a Índia, esperava que a viagem de trem até Nova Délhi fosse, no mínimo, desafiadora, mas devo confessar também que a estrutura da segunda classe da Indian Railways é bastante confortável; cama, travesseiro e cobertas melhores que muitos hotéis brasileiros; tomadas que mantém meus gadgets carregados durante todo o trajeto enquanto releio o ótimo Jeff em Veneza, morte em Varanasi do sempre ótimo Geoff Dyer e penso não apenas sobre diferentes culturas, costumes e criações, mas principalmente sobre fronteiras, essas demarcações de terra em mapas imaginados e criados por homens, e penso também em religiões, essas crenças e costumes e adorações por deuses criados e imaginados, vejam só vocês, por homens, e todas as vidas brutalmente interrompidas em guerras e conflitos criados e imaginados, vejam só vocês de novo, por homens; tudo por conta disso: fronteiras e religiões; e homens.
2.
O hotel não era exatamente como nas fotos anunciadas na internet. Talvez não seja nem o mesmo hotel, porém, ainda que confortável, a viagem de trem foi longa, de modo que quando chegamos em Nova Délhi, já tarde da noite, H. e eu não tivemos forças para dizer “hey, esse quarto não se parece com o das fotos”, mas ainda assim pedimos um novo quarto – que também não se parecia com o das fotos – porque nos colocaram num quarto que 1) a cama era de casal e não as duas camas de solteiro que reservamos – masculinidade frágil? – e 2) o ar condicionado não estava funcionando.
“O ar condicionado também não está funcionando.” – digo para o funcionário que nos leva até o novo quarto.
“Um momento, senhor.”
O quarto fica no terceiro andar. No corredor há um sofá com buracos enormes feitos provavelmente por ratos. As paredes, não apenas do corredor, mas também do quarto, possuem manchas amarronzadas de algo que prefiro acreditar ser mofo – o mofo de The Last of Us, quem sabe. Há também um quadro de disjuntores. O rapaz liga um deles e, voilà, o ar condicionado começa a funcionar.
“Mesmo com o ar condicionado, mantenha o ventilador ligado. É melhor.” – diz o rapaz, sem muitas explicações.
3.
Sou acordado pelo barulho das pás do ventilador de teto assim como o capitão Benjamin L. Willard, personagem de Martin Sheen em Apocalypse Now; o suor escorrendo, o lençol encharcado, será que me mijei durante a noite?, o ar condicionado misteriosamente desligado, são 7 e qualquer coisa da manhã e faz 38 graus em Nova Délhi.
“Cara, tu desligou o ar condicionado?” – pergunto para H. assim que ele acorda.
“Não, meu. Acho que parou de funcionar.”
“Será que eles desligaram o disjuntor para economizar?”
Sim, eles desligaram o disjuntor para economizar. Em todas as três noites que dormimos em Nova Délhi.
4.
Abro a janela do banheiro e os sons que vêm da rua confirmam: estou na Índia. Buzinas, preces, ambulantes, feirantes, vacas, cachorros, música alta; há vida lá fora. Do lado de dentro, tento tomar banho no estilo indiano: sentado num banquinho de plástico, um balde para lavar a cabeça. A água é gelada (mais um disjuntor desligado?), mas no calor de Nova Délhi isso pouco importa.
Na saída do hotel percebo algo que havia passado batido durante o check in: um detector de metais (que não parece estar funcionando) desses que vemos nos aeroportos. Em novembro de 2008, um grupo de homens fortemente armados com fuzis e granadas realizou ações coordenadas em diversos pontos de Mumbai – nosso próximo destino. No Taj Mahal Palace Hotel, os invasores abriram fogo, fizeram reféns e provocaram incêndios. A operação das forças de segurança indianas para retomar o controle do hotel durou cerca de 60 horas. Ao todo, 166 pessoas morreram nos ataques em Mumbai, incluindo civis e agentes de segurança, além de centenas de feridos. Desde então, os detectores de metal são obrigatórios nas entradas dos hotéis.
5.
“Quando você voltar para casa, conte-lhes sobre nós, e diga que, pelo amanhã deles, nós demos o nosso hoje.”
(John Maxwell Edmonds)
No coração de Nova Délhi, ao lado do India Gate, monumento que numa comparação preguiçosa devo mencionar que lembra o Arco do Triunfo parisiense, está o Memorial Nacional de Guerra, uma homenagem aos soldados mortos na Primeira Guerra Mundial e na Terceira Guerra Anglo-Afegã, bem como em conflitos – principalmente contra o Paquistão3 – ocorridos desde a independência indiana.
E aqui é necessário um pouco de contexto.
A independência do subcontinente indiano, em 1947, marcou o fim de quase dois séculos de domínio britânico e deu origem a dois novos Estados soberanos: Índia e Paquistão. O processo, no entanto, ficou longe de ser pacífico e deixou um legado de violência e tensões que perdura até hoje.
A saída do Império Britânico foi acelerada após a Segunda Guerra Mundial, diante do enfraquecimento econômico da metrópole e da intensificação dos movimentos nacionalistas locais. Lideranças como Mahatma Gandhi, defensor da resistência não violenta, e Jawaharlal Nehru, figura central do Congresso Nacional Indiano, pressionaram por uma independência unificada. Por outro lado, Muhammad Ali Jinnah, líder da Liga Muçulmana, defendia a criação de um Estado separado para os muçulmanos.
A solução encontrada pelos britânicos foi a partição do território em dois países: a Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, concebido como uma nação para muçulmanos (inicialmente dividido em duas partes, o Paquistão Ocidental e o Paquistão Oriental — este último se tornaria Bangladesh em 1971). O processo, formalizado em agosto de 1947, desencadeou uma das maiores migrações em massa da história: cerca de 14 milhões de pessoas cruzaram as novas fronteiras em busca de segurança religiosa.
A partição foi acompanhada por uma onda de violência sectária que resultou na morte de aproximadamente um milhão de pessoas. Desde então, Índia e Paquistão têm mantido uma relação marcada por desconfiança e conflitos, especialmente em torno da região da Caxemira. Logo após a independência, os dois países travaram a Primeira Guerra da Caxemira, que terminou com a divisão do território entre as duas nações. A disputa permanece sem solução definitiva.
A rivalidade ganhou uma dimensão ainda mais preocupante com os testes nucleares realizados por ambos os países em 1998, transformando a disputa em uma das mais perigosas do cenário internacional. Escaramuças na fronteira, acusações de apoio a grupos insurgentes e crises diplomáticas frequentes continuam a alimentar a instabilidade.
E aí chegamos em 2008 e aos ataques em Mumbai. Investigações indicaram que os responsáveis pelos ataques ao Taj Mahal Palace Hotel e outros pontos da cidade eram membros do grupo extremista Lashkar-e-Taiba, uma organização sediada no Paquistão e considerada terrorista por diversos países.
Fronteiras e religiões; e homens.
6.
Num dos pores do sol mais bonitos que veria na Índia, me dou conta, num Memorial Nacional de Guerra lotado, que H. e eu somos os únicos turistas brancos. De lá, uma passada na 9ª edição do India International Folk Festival, evento com apresentações de artistas da Armênia, Congo, Quirguistão, Sri Lanka, entre outros países não tão, digamos, mainstream. Somos, de novo, os únicos turistas brancos.
“Oi. Tudo bem? De onde vocês são?” – um Jovem Indiano Franzino puxa assunto.
“Brasil.” – H. responde.
“Uau! Brasil! Posso chamar meu amigo para conhecer vocês?”
O amigo veste uma camisa da seleção brasileira; Ronaldinho, 10, nas costas. Seu inglês não é dos melhores, ele pede desculpas, “é melhor que meu hindi”, digo, e engatamos uma conversa com nomes de jogadores, “Ronaldo, o verdadeiro Ronaldo, Neymar, Kaká, Carlos – o Roberto Carlos –, Vinícius Jr.”, “estamos indo para uma festa, vocês querem ir?”, o Jovem Indiano Franzino faz o convite que H. e eu recusamos devido ao cansaço, mas marcamos uma cerveja no dia seguinte num bar que segundo nossos novos amigos é “top”.
Trocamos arrobas de Instagram, o Jovem Indiano Franzino pede uma foto em grupo e, assim como aconteceu em Jaipur com os amigos que lá fizemos, indianos aleatórios passam a nos seguir e enviar mensagens para que os sigamos de volta.
“Somos famosos na Índia, meu.” – H. diz orgulhoso.
7.
“Desculpe o atraso. Eu estava numa audição.” – diz o Jovem Indiano Franzino.
“Audição?” – pergunto, surpreso.
“Sou cantor.” – e, como se estivéssemos num musical de Bollywood, cantarola uma versão a cappella de Bella ciao; cabeça e mãos balançando como se flutuasse pelas ruas de Nova Délhi.
🎵 Uma playlist indie(ana) 🇮🇳
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🧠 Para ler, assistir e ouvir
“Será que consigo ser nômade digital?”; se pergunta Monique Evelle.
“Descomplicando o Substack (pra quem está começando)”; essa aula do Luri Ribeiro (o próximo convidado do Clube Passageiro).
“De onde escreve: Gaía Passarelli”; entrevista da Daniela Arrais [Brecha] com a Gaía Passarelli sobre processo criativo.
“A tortura e o alívio de ser você mesma”; essa reflexão da Yna Marson.
“Viver ou contar?”; essa outra reflexão da Carol Bensimon.
Estou lendo: Sightseeing (em inglês), do escritor tailandês Rattawut Lapcharoensap.
“Como ganhar dinheiro fazendo o que você gosta”; esse vídeo do Arthur Miller.
Pé na Estrada: O Movimento de uma Nação; esse documentário sobre Jack Kerouac disponível no Prime Video.
Você sabia que esta newsletter tem uma playlist no Spotify com todas as músicas indicadas aqui? Pois é. A Rádio Passageiro é atualizada semanalmente.
“Viagem” é um substantivo e faz referência ao ato de viajar. “Viajem” é o verbo “viajar” conjugado na terceira pessoa do plural, no presente do modo subjuntivo.
Lembram do Indiano Boa Pinta e Brincalhão da fábrica de estampas em Jaipur? Pois é.







Eu estive no sul da Índia em 2014. Única vez. Nesses doze anos, não passei uma semana sem pensar em quando voltar. Obrigada pelo link, Matheus! E boas viagens 💙
curti muito a edição! p.s. como vc se sentiu escrevendo pores do sol? nunca ousei escrever esse plural!