#142 – Escrevi 'Clarice Lispector' no caderninho de Patti Smith
Um encontro inesperado e surreal com a rainha do punk em Paris.
🎧 Para ler ouvindo1: Dancing Barefoot, por Patti Smith.
📍 Paris, França
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
“Ao sair do teatro com minha mãe, uma multidão de jovens me cercou com álbuns para autografar. Estava frio, e me sentia elétrica e exausta; queria apenas continuar em movimento. Minha mãe ficou indignada com a ideia de que eu fosse embora. Você vai assinar cada álbum, ela exigiu, não esqueça quem te colocou aqui.“
Patti Smith em Pão dos anjos: A história da minha vida.
1.
A primeira vez que ouvi falar em Substack foi por conta de Patti Smith.
Em abril de 2021, uma matéria da NME anunciava o lançamento da nova newsletter da lenda do punk:
“A lenda do punk anunciou a novidade no Instagram, explicando que o novo projeto será enviado semanalmente às caixas de entrada dos assinantes e trará reflexões originais, poemas, músicas, comentários e muito mais.
‘Escrever é o que faço desde os doze anos, quando me imaginava como Jo March. Meditações, romances policiais e poemas, escondidos em pilhas de cadernos, escritos em todas as fases da minha vida. Agora, em tempos de pandemia, isolada da família, dos amigos e dos colegas de trabalho, estamos reinventando nossos processos’, escreveu Smith na página de sua newsletter.
‘Por meio do Substack, pretendo criar um conjunto de trabalhos interligados para uma comunidade participativa. Toda semana publicarei minhas reflexões, fragmentos de poesia, música e pensamentos sobre qualquer assunto que encontre seu caminho da mente para a caneta.’
Em outubro de 2022, após muito estudar a plataforma – na época ainda dominada por gringos –, decido criar meu próprio conjunto de trabalhos interligados: Passageiro (hoje um ecossistema digital que envolve newsletter, comunidade, escola e TV; e vem mais coisa por aí!).
Chego no título após The Passenger, de Iggy Pop, tocar aleatoriamente nos fones de ouvido – enquanto supostamente pilotava uma motinho sem habilitação pelo Sudesde Asiático.
Gosto do significado duplo.
Passageiro
substantivo masculino
Pessoa que usa um meio de transporte; quem é transportado de um lugar para outro por um veículo (público ou particular).
adjetivo
Que passa rapidamente, de curta duração; breve, momentâneo.
Escrevo uma definição própria para o projeto.
Uma exploração sobre o sentido da escrita, das viagens e da passagem do tempo.
2.
Vim de uma adolescência punk rock, escutando principalmente blink-182 e Green Day (os mais puritanos chamarão isso de pop punk) enquanto tentava andar de skate, de modo a primeira vez que ouvi falar em Patti Smith foi apenas na faculdade. Na época, estava numa fase Bob Dylan, Miles Davis, Jack Kerouac, Allen Ginsberg e beatniks; foi questão de tempo chegar até em Patti Smith.
Minha introdução deu-se com Horses, álbum de 1975 que catapultou Patti Smith para os holofotes, mas foi anos mais tarde, através da sua escrita, que tornei-me grande fã: Só garotos (2010), Linha M (2015) e Devoção (2017) me fizeram companhia durante a pandemia de Covid-19.
3.
Patti Smith e Leonard Cohen são, talvez, os artistas que mais me fascinam; poetas que tornaram-se músicos. Gosto de pensar que, se vivo estivesse, Leonard Cohen também teria uma newsletter no Substack para publicar “reflexões, fragmentos de poesia, música e pensamentos sobre qualquer assunto que encontre seu caminho da mente para a caneta.”
4.
Quando me perguntam do que você mais gosta em Paris?, respondo sobre como sempre está acontecendo algo de segunda a segunda, comento a respeito da cena cultural, os shows, as livrarias, as bibliotecas, os museus, mas tem algo além de tudo isso: o inesperado; algo de mágico que provavelmente não aconteceria em outro lugar senão aqui.
Uma Amiga comenta que Patti Smith estará na Shakespeare and Company2 para uma breve sessão de autógrafos de Pão dos anjos (2025), sua obra mais recente. A Amiga fica sabendo do evento por conta de uma publicação do perfil oficial da livraria no Instagram, o qual também sigo, mas por questões algorítmicas a publicação acaba passando batida por mim, de modo que, caso a Amiga não tivesse mencionado, eu provavelmente teria perdido a sessão de autógrafos de Patti Smith – o que mostra que, talvez, a melhor maneira de se manter informado seja justamente através de… newsletters!; por via das dúvidas, acabo de assinar a newsletter da Shakespeare and Company.
O evento tem algumas regras: 1) Patti Smith autografará livros das 13:30 às 14:30; 2) a fila começa às 12:30; 3) apenas livros; nada de dedicatórias, memorabíilia, camisetas ou vinis; 4) no máximo dois livros por pessoa; 5) nada de selfies; 6) famílias com crianças têm preferência na fila.
Chego por volta do meio-dia e a fila já está dando volta no quarteirão. Faz um calor fora de época, 35 graus, o tal do canicule, como dizem os franceses, que matou quase 6 mil pessoas (!) nas últimas semanas – a maior onda de calor no país desde 2003. Escuto alguns comentários preocupados com Patti Smith, que completará 80 anos em 30 de dezembro deste ano.
“Ela passou mal ano passado no Brasil.” – um brasileiro comenta com um amigo, referindo-se à forte enxaqueca que a fez desmaiar no palco em um show em São Paulo em janeiro de 2025.
5.
Dentro da livraria, um calor absurdo. Há dois ventiladores virados na direção de Patti Smith. Ela está usando suas tradicionais tranças, óculos escuros, um paletó preto puído por cima de uma camiseta rosa, calça jeans e duas correntinhas que imagino serem amuletos – em seus livros, Patti Smith frequentemente usa o termo “amuletos” para bens materiais afetivos.
“Você deve ouvir isso o tempo todo, mas sou um grande fã. Adoro sua escrita. Comecei um Substack por causa de você.”
“Obrigada. Sobre o que você escreve?”
“Sobre… a vida. O que eu vivo.” – dou uma titubeada.
Patti Smith assina o livro.
“E como é seu nome?”
“Matheus.”
“Matêous?” – ela pronuncia com seu sotaque de Chicago.
“Isso. Como o apóstolo. Matthew em inglês, Mathieu em francês, Matheus em português. Sou do Brasil.”
“Ah! Soa muito bonito em português. Adoro o Brasil.”
O segurança faz sinal que devo deixar a sala, mas Patti Smith continua a conversa.
“Como é mesmo o nome daquela escritora brasileira? Que escreve histórias curtas3.”
“Clarice Lispector?”
“Isso! Adoro Cléruice. Há um tempo li uma coletânea incrível de histórias curtas4.”
O segurança mais uma vez faz sinal. Patti Smith ignora.
“Você se importa de escrever o nome dela para mim? Não quero esquecer.”
Patti Smith tira um Moleskine surrado da sua bolsa. Escrevo o nome de Clarice Lispector no caderninho de Patti Smith.
“Obrigada, Matêous.”
6.
Às 14h30 em ponto, Patti Smith se levanta da mesa. Cruza a Shakespeare and Company em passos lentos e para junto à porta de entrada da livraria. Antes de ir embora, agradece a presença de quem enfrentou o canicule para vê-la.
🧠 Para ler, assistir e ouvir
Estou lendo Colcoz, romance em que Emmanuel Carrère (um dos meus autores favoritos!) volta ao terreno da memória familiar para reconstruir a saga de seus antepassados, com destaque para a conturbada relação com a mãe, a renomada historiadora Hélène Carrère d'Encausse.
Se você não pode mudar o vento, mude a direção da vela; esse texto (em inglês) do henriqueodi me pegou muito.
Quantas estrelinhas merece a minha música?; esse texto da letruska.
O poder da prática da escrita; essa live do Substack Brasil com Gaía @ Substack e Fabiane Guimarães.
Tô curtindo muito assistir os vídeos do Murilo Choquetta do Pescados e Convidados.
Estou novamente numa fase Bob Dylan; tenho ouvido bastante Desire, álbum de 1976. Para trabalhar, essa playlist de slowcore ou essa de música ambiente/instrumental japonesa.
💰 Mentoria Monetize
A Mentoria Monetize é um programa individual e personalizado para quem tem um projeto (ou uma ideia de projeto) e busca monetizar o seu conhecimento/conteúdo.
Se você é familiarizado com o meu trabalho, já deve ter percebido que não tolero bullshitagem, de modo que durante a Mentoria buscaremos, juntos, formas realistas para você ganhar dinheiro na internet sem precisar romper com os seus valores pessoais.
Durante o programa você terá acesso ao meu cérebro; e às estratégias que utilizo e/ou já utilizei para vender o meu conhecimento/conteúdo na internet.
Mais que isso: verá que existe espaço para todo mundo, que seu nicho não está saturado, que você não precisa ser influenciador para ganhar dinheiro na internet, que você não precisa fazer o que todo mundo está fazendo e, principalmente, que existe vida online além do Tik Tok e do Instagram.
E, se você me permite um clichê, vou te ajudar a pensar fora da caixa.
Você sabia que esta newsletter tem uma playlist no Spotify com todas as músicas indicadas aqui? Pois é. A Rádio Passageiro é atualizada semanalmente.
Nos Estados Unidos eles geralmente chamam de short stories aquilo que conhecemos no Brasil como crônicas.
Fiz minha pesquisa e, em 29 de agosto de 2023, Patti Smith indicou Too Much of Life da Clarice Lispetor neste mesmo Substack.






Que demais! Li sua crônica enquanto aguardo o show da Patti começar em Estocolmo :)