#130 – O que acontece depois que você realiza os seus sonhos?
Sobre tornar-se escravo daquilo que você sempre sonhou.
Para ler ouvindo1: Maggot Brain, por Funkadelic.
📝 Nota do editor
Já são quatro anos de newsletter Passageiro. Quando abri este espaço lá em 2022, a ideia era simples: compartilhar os bastidores do processo de escrita do meu próximo livro.
O que houve com o livro? Nunca o finalizei por conta de um (bom) problema: Passageiro, que no momento em que escrevo essas linhas conta com 18.153 assinantes, tornou-se mais que uma simples newsletter; é hoje também comunidade, escola e TV, o que deixou este escriba bastante ocupado nos últimos anos.
2025 foi caótico para mim por diversos motivos. Cheguei em dezembro esgotado (falei a respeito neste vídeo da PassageiroTV), de modo que desde a virada para 2026 tenho trabalhado e me planejado nos bastidores para conseguir equilibrar os pratinhos novamente; e mais que isso: para finalmente viver de literatura e publicar um próximo livro.
Na 130ª edição de Passageiro, faço algo que não costumo fazer: “requentar” um texto. Os parágrafos que vocês lerão a seguir foram escritos originalmente em meados de 2024. Na época, eu vivia uma espécie de crise existencial com os rumos que a minha carreira estava tomando. Decidi recuperar este texto por conta do seu timing: o que talvez eu não estava enxergando em 2024 é que, por mais clichê que isso soe, às vezes temos que dar um passo para trás para dar dois para frente.
1.
Enquanto senhoras com chapéus de palha vendem vegetais e pés de porco na calçada, tento atravessar um cruzamento. Tenho a sensação de que os sinais de trânsito em Hanói, no Vietnã, não são obrigatórios; são apenas sugestões.
Vejo motos na contramão, motos estacionadas nas calçadas, motos circulando pelas calçadas, motos circulando pelas calçadas na contramão (!!!). Os números oficiais dizem que são 5 milhões de motos e 8 milhões de habitantes, mas a impressão é que sejam mais. Ou talvez elas sejam uma extensão dos próprios vietnamitas que, quando não estão sentados em suas motos – às vezes com duas ou mais pessoas equilibradas na garupa –, estão em banquinhos de plástico na calçada com suas sopas fervilhantes, dividindo o espaço com suas próprias motos e com outras que circulam na contramão.
Como Os Sombras, aqueles que fizeram sucesso no Domingão do Faustão em meados dos anos 1990, posto-me ao lado de uma família vietnamita e finalmente consigo chegar ao meu destino, o Bún chả Hương Liên, restaurante onde Barack Obama e Anthony Bourdain dividiram uma refeição em 2016. Em uma entrevista para o The New Yorker, meses após o famoso almoço com o então presidente dos Estados Unidos, Bourdain se pergunta como estará o restaurante agora.
Sentado na mesa 10 vejo como o lugar conseguiu aproveitar os seus 15 minutos de fama. As paredes agora são decoradas com fotos do encontro entre os dois e por 120 mil dongs vietnamitas (R$ 24 na cotação atual) é possível pedir o “Combo Obama” – bún chả, um rolinho primavera de frutos do mar e uma lata de Hanoi Beer, a cerveja local. Tento, sem sucesso, pedir uma versão vegetariana. Lembro-me de quando Bourdain disse que seu corpo não era um templo, mas um parque de diversões, e mando ver no bún chả original. Passo a noite no banheiro.
2.
No apagar das luzes de 2022, uma biografia não autorizada incluindo arquivos e mensagens retiradas do telefone e do laptop de Bourdain chegou às livrarias.
Charles Leerhsen, o autor da polêmica obra, disse que obteve esse material de uma fonte confidencial, mas acrescentou que quem cuida do patrimônio – Ottavia Busia-Bourdain, a ex-esposa do chef viajante –, "não se opôs”.
Bourdain, que alcançou o estrelato apenas aos 44 (do segundo tempo; não resisti, desculpa) com o livro Cozinha Confidencial após uma vida dos mais variados vícios e trabalhos em cozinhas de Nova York, de repente tinha o emprego dos sonhos: o sucesso do seu livro de estreia o levou para a TV e ele passou a ser (muito bem) pago para viajar o mundo enquanto comia e bebia com desconhecidos das mais diferentes culturas; fez isso por quase duas décadas.
Há algo de desrespeitoso em ler, sem consentimento, as mensagens de alguém que já se foi, mas, ainda que o livro não passe de um caça-níquel mórbido, traz algumas reflexões no mínimo interessantes sobre os bastidores de alguém que alcançou o “emprego dos sonhos”.
"Eu também odeio meus fãs. Eu odeio ser famoso. Odeio meu trabalho. Estou sozinho e vivendo em constante incerteza”, escreveu Bourdain em uma de suas trocas de mensagens quase diárias com a ex-esposa.
3.
Houve um tempo, quando eu ainda morava no interior de Santa Catarina e odiava o o meu trabalho (além do ódio eu ganhava exatos R$ 1.632,00 como CLT), em que meus dois maiores sonhos eram trabalhar por conta própria de forma remota e viajar o mundo. Eu tinha 28 anos quando realizei ambos.
Aos 30, escrevi um livro contando essa história e realizei mais um sonho: ser publicado. No ano seguinte, mais um: o livro é finalista do Prêmio Jabuti e me traz visibilidade.
Esses sonhos foram realizados graças aos conteúdos que produzi no LinkedIn e no Instagram entre 2015 e 2019 (meu período mais ativo na internet). O LinkedIn sempre foi a minha principal rede; depois veio o Instagram; o Substack é mais recente (fim de 2022).
Eu não odeio os meus leitores (pelo contrário), não odeio ser famoso (porque não sou), mas de uns tempos para cá percebi que, mais uma vez, agora aos 34 (quase 35), estou odiando o meu trabalho.
Eu adoro escrever; não me entenda mal. E o Substack talvez tenha devolvido um pouco do brilho dos meus olhos em fazer o que eu faço, mas eu não suporto mais produzir conteúdo para o LinkedIn e para o Instagram; eu não suporto mais pensar em qual formato vai gerar mais engajamento; eu não suporto mais me importar com algoritmos; eu não suporto mais ter que me manter ativo nas redes sociais para ter bons números para o meu mídia kit; mas eu preciso suportar tudo isso porque, para alcançar o meu sonho maior (talvez o meu último grande sonho), que é viver de livros, eu preciso disso – essas coisas pagam as minhas contas, assim como o meu antigo trabalho pagava em 2016, e não tenho saúde financeira para simplesmente abandonar as redes sociais; tornei-me refém do meu próprio trabalho; assim como, devidas proporções, Anthony Bourdain tornou-se do seu.

4.
Nathaniel Drew publicou um vídeo sobre porque tantos YouTubers estão abandonando os seus canais; Matt D’Avella sobre porque demitiu toda a sua equipe e está trabalhando por conta própria mais uma vez; ambos os vídeos estão em inglês.
E aqui me pergunto: e se eu conseguir, finalmente, viver de livros, o que vem depois?
5.
Do restaurante segui para o Templo da Literatura, construído em 1070 em homenagem ao filósofo chinês Confúcio. Dizem que escritores costumam ir lá antes do lançamento de um livro na esperança de que ele se torne um best-seller.
No alto da hipocrisia do meu ateísmo, aproveito a visita para fazer uma prece no Altar de Confúcio. Sou de família católica, fiz a Primeira Comunhão, o Crisma, pensei em tornar-se Coroinha, mas em algum momento da adolescência deixei de acreditar em algo maior. Acho que é mais fácil viver assim.
Na dúvida sobre a qual Deus endereçar a oração, dirijo meus pensamentos a Anthony Bourdain, o Padroeiro dos Escritores & Viajantes Desajustados. Confesso ter saído do Templo edificado, imaginando que depois dessa prece o livro que estou escrevendo certamente será um sucesso.

6.
Ontem, pela terceira vez na vida, a segunda em Paris, assisti um show de Tim Bernardes, um dos músicos mais talentosos (se não o mais) da nossa geração. A apresentação aconteceu no Le Trianon, um teatro parisiense imponente que deu uma vibe a mais ao espetáculo de um homem só.
A letra de Quis Mudar, faixa de Recomeçar, o primeiro álbum solo de Tim, me pegou.
Eu quis mudar
E isso implicava em deixar para trás
Meu chão, meu conforto, o certo, a paz
Eu fui à procura de maisNão vou voltar
Embora me tente olhar para trás
Tem noites que eu penso que não vai dar mais
Mas ser, é melhor que lembrarE eu pensei
Que o que eu construí tempo atrás
Só foi existir
Depois que eu fui buscar
Talvez seja hora de ir buscar mais. Afinal de contas, eu já fiz uma vez; acho que consigo fazer de novo. O que vem depois eu penso… bom, depois.
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já tinha lido esse texto e sempre gosto de ler de novo porque me identifico tanto.
também passando por uma crise profissional aqui, porque não me identifico mais tanto com o que faço. e é curioso ver como os contextos mudam... anos atrás eu achava que estava total no lugar certo e hoje já vejo tudo a partir de outras perspectivas.
algo que me ajuda é pensar que cada passo me trouxe até aqui, tudo é parte de uma construção maior, então nada foi em vão!