Tailândia #8 – O ano em que decidi viver de literatura
Tenho três meses e meio para escrever um romance; mas não só.
🎧 Para ler ouvindo1: Some Are, por David Bowie & Brian Eno.
📍 Florianópolis, Santa Catarina, Brasil
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
2021.
Tudo começa em Playa del Carmen, no México, onde vivi por seis meses durante o segundo ano da pandemia de Covid-19. Na verdade, tudo começa um ano antes, em Koh Phangan, na Tailândia; é quando fico obcecado pelo país do Sudeste Asiático após ficar “preso” por lá assim que as fronteiras internacionais são fechadas; eu não sabia disso quando desembarquei no aeroporto de Chiang Mai em março de 2020, mas a Tailândia seria minha casa pelos próximos oito meses.
E aí sim Playa del Carmen e o México. Voltemos. No meio dessa bagunça que foi 2020, meu primeiro e até aqui único livro publicado, Nômade Digital, é um dos cinco finalistas do Prêmio Jabuti. Devo dizer que sou uma pessoa ambiciosa, mas nem nos meus sonhos mais malucos esperava que isso acontecesse com o meu primeiro livro; ainda mais esse livro – que não é exatamente o livro que eu sempre quis escrever; eu queria escrever o meu On the Road, não uma obra categorizada como “desenvolvimento pessoal” – nada contra!; inclusive tenho orgulho do meu simpático livrinho.
O Jabuti trouxe certa visibilidade, de modo que resolvo apresentar a ideia de um livro com crônicas de viagens para um grande grupo editorial que havia me sondado no passado – algo que sempre tive vontade de fazer, mas que no México, entre um mojito e outro, foi ganhando corpo. O caminho natural, pensava eu, seria esse, uma espécie de bastidores da vida na estrada retratada em Nômade Digital, mas com uma pegada mais literária.
“Sendo bem honesto, não creio muito em livros de crônicas de viagens.” – diz o editor. “Ou melhor, não creio muito no potencial que possam ter em termos comerciais, uma vez que estou numa editora com pegada mais comercial. Creio que tanto os projetos relacionados a viagens quanto os livros de crônicas vivem momento de baixa.”
“Também tenho uma ideia de romance. Ainda é algo bastante embrionário, mas é um romance que se passa na Tailândia.”
“Ótimo. Sobre o romance, teria curiosidade de saber mais. Se tiver algo já escrito e puder mandar eu agradeço.”
2022.
A recusa ao livro com as crônicas de viagem me trava até o fim de 2022, quando me mudo para uma cidadezinha no litoral da Toscana, na Itália – sim, vivi em muitos lugares nos últimos anos. Após o feedback do tal editor, tento me desafiar a fazer algo diferente, um formato dentro da não ficção que remeta às crônicas, mas que seja outra coisa, que possa ser lido como um romance, onde tudo de certa forma esteja interligado.
Nasce, assim, a newsletter Passageiro; e 150 páginas de um livro inacabado não apenas sobre viagens, mas sobre a passagem do tempo; daí o título.
Passageiro
substantivo masculino
Pessoa que usa um meio de transporte; quem é transportado de um lugar para outro por um veículo (público ou particular).
adjetivo
Que passa rapidamente, de curta duração; breve, momentâneo.
2023.
Estou novamente em Koh Phangan e não consigo tirar a ideia do romance tailandês da cabeça – e isso trava a escrita de Passageiro, o livro com crônicas de viagens que nesse ponto já não é mais um livro com crônicas de viagens. Estou obcecado com a história da Tailândia. Leio livros sobre o país, maratono os filmes de Apichatpong Weerasethakul, pesquiso sobre os temas que quero tratar em minha história – que nesse ponto já não é mais minha, mas dos personagens que vão surgindo no processo de pesquisa.
Na metade do ano, me mudo para Paris, dessa vez para valer, não se trata de mais uma temporada nômade. Monto um escritório no apartamento da Rue Pierre Fontaine, compro uma cadeira confortável, decoro a mesa com souvenirs de viagens e decido: chegou a hora de viver de literatura. Retomo a escrita de Passageiro, o livro.
2024.
Ganhar em real e gastar em euro começa a pesar, de modo que me vejo tendo que ser criativo não na escrita de Passageiro, o livro, que mais uma vez é engavetado, mas na diversificação de minhas fontes de renda, o que me consome tempo e energia.
Já Passageiro, a newsletter, não para de crescer. Consigo uma credencial de imprensa para os Jogos Olímpicos de Paris e decido fazer uma espécie de cobertura literária. Isso me dá certo gás nessa ideia de viver de literatura e, num dia sem grandes emoções no centro de imprensa dos Jogos, sem nenhum planejamento e de forma impulsiva, escrevo um e-mail para os assinantes pagos de Passageiro, a newsletter, em que conto sobre a minha ideia de romance, dou detalhes da história e chego a compartilhar alguns rascunhos escritos no calor do momento.
Anuncio ainda que:
“A partir de hoje, assinantes pagos da newsletter Passageiro receberão uma edição extra e mensal (sempre na primeira sexta-feira do mês) com os bastidores do processo de escrita de Há algo de podre no reino da Tailândia, meu primeiro romance.”
Cumpro a promessa e, entre julho e novembro (tiro férias em dezembro), cinco edições com os bastidores do processo de escrita são enviados aos assinantes pagos. Tenho avanços significativos com a história. Encontro um rumo para os meus personagens. Tudo parece estar alinhado. O romance vai ganhando corpo. Coloco como objetivo terminá-lo até o próximo verão europeu – e aí sim, quatro anos depois, enviá-lo para o tal editor. Viver de literatura nunca pareceu algo tão próximo.
2025.
“A vida não está nem aí para o seu planejamento”, essa frase não é minha, circula pela internet há tempos e supostamente sua autoria é desconhecida, mas vez ou outra me aproprio dela.
Meu relacionamento de cinco anos chega ao fim. Deixo Paris e o escritório no apartamento da Rue Pierre Fontaine para trás e decido passar três meses na Tailândia supostamente para escrever o romance.
“Supostamente” porque, bem, meu relacionamento de cinco anos chega ao fim. Não há cabeça para escrever um romance durante um processo de divórcio. Há algo de podre… acaba na mesma gaveta que Passageiro.
O visto tailandês expira e sigo viajando pela Ásia; Índia, Indonesia, Japão. Se não consigo escrever, tento ao menos gravar vídeos para a PassageiroTV. Gravo muita coisa, mas não tenho forças para editar; fracasso também como YouTuber. Volto para Paris – não para o apartamento da Rue Pierre Fontaine. Encerro o ano em Santa Catarina.
2026.
“A coisa mais importante que aprendi sobre a escrita é nunca escrever muito de cada vez… Nunca se deixar secar. Deixe um pouco para o dia seguinte. A principal coisa é saber quando parar. Não espere até que tenha escrito tudo. Quando ainda está fluindo bem e você sabe o que vai acontecer a seguir, essa é a altura certa de parar. Em seguida, deixe e não pense mais sobre isso; deixe o seu subconsciente fazer o trabalho“. (Ernest Hemingway)
Hemingway defendia a ideia de “deixar o texto dormir” para sempre ter um ponto de partida quando sentava para escrever. Gosto dessa ideia, mas meu texto dormiu demais. Leio os rascunhos e não consigo lembrar onde eu queria chegar com eles. Pior: não estou mais obcecado com a história.
Não sou religioso, não entendo nada de astrologia, mas acredito que certas coisas precisam de timing; ou ao menos de prazos.
Jabuti à parte, Nômade Digital teve certa relevância por conta do seu contexto de lançamento: a obra é publicada sem muito alarde em julho de 2019; em março de 2020 começa a pandemia de Covid-19 e o trabalho remoto vira o “novo normal” – pelo menos por um tempo…
O processo de escrita? Não foi exatamente uma obsessão, mas um contrato e um prazo: eu deveria entregar o manuscrito até 31 de dezembro de 2018; e obviamente o enviei no apagar das luzes de 31 de dezembro de 2018.
Resolvi tirar Há algo de podre… da gaveta porque agora tenho um prazo: 15 de maio de 20262. Reza a lenda que Jack Kerouac escreveu o seu On the Road em três semanas; tenho pouco mais de três meses para escrever o meu. O timing? Não poderia ser melhor. Em abril vou correr uma maratona na Coreia do Norte (!) e, bem, eventualmente escreverei um livro contando essa história – mas antes preciso terminar as que comecei.
🇹🇭 Anteriormente em Há algo de podre…
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Você sabia que a newsletter tem uma playlist com todas as músicas indicadas aqui? Ela é atualizada semanalmente. Também criei uma playlist com as músicas que tenho escutado enquanto escrevo Há algo de podre no reino da Tailândia.
O porquê do prazo vou manter em segredo… 👀












Adorei conhecer essas idas e vindas e a na linearidade do processo. Obrigada por expor e inspirar, Matheus!
obrigada por compartilhar parte de seu processo e jornada! Adorei saber desses best-dores, perdão pelo trocadilho infame. Eu também morei no México, por 5 anos! e desde 2021 que sobrevivo como escritora, não tenho outra fonte de renda, toda minha grana vem de meus versos. ler seu relato, foi uma inspiração para eu seguir até conseguir, não desistir!