#134 – Um dia na minha vida como escritor em Paris
(Não é tão chique quanto parece; mas é bem legal; às vezes).
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🎧 Para ler ouvindo1: Broken Boy, por Cage The Elephant (feat. Iggy Pop).

📍 Paris, França
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
1.
“Por que você escreve?”.
Essa pergunta sempre me deixa desconfortável.
Em oficinas literárias é comum alunos e alunas responderem coisas bonitinhas e profundas como “porque eu preciso colocar para fora o que pulsa aqui dentro”, “porque é uma necessidade da alma”, “porque, para mim, escrever é como respirar” – quem disse essa última foi Pablo Neruda, na verdade.
De todas citações que li de escritores e escritoras respondendo essa desconfortável questão, talvez a mais sincera das respostas, a que mais me identifico, seja a de William Faulkner, que certa feita disse simplesmente: “para ganhar a vida”.
Eu não tenho uma razão bonitinha e profunda. Escrevo, talvez, por dois simples motivos: 1) porque gosto e 2) porque, assim como Faulkner, é como ganho a vida.
Desculpem-me os literários e literárias deste Substack, mas não consigo relacionar-me com qualquer outra coisa além disso.
Escrever é como ter dever de casa pro resto da vida (acho que essa frase tem dono; talvez um escritor argentino ou uruguaio, mas não encontrei no Google, então a partir de agora é minha). Muitas vezes é chato, mas é moleza. Pode ser feito em qualquer lugar, em qualquer horário. Em algumas horas você faz o que tem que ser feito.
Dureza era ir todos os dias para o escritório de bicicleta no interior de Santa Catarina, não pelo exercício físico, mas por necessidade, fizesse chuva ou sol, e durante 8h30 se ver obrigado a realizar um trabalho muito mais chato do que escrever essas linhas.
Acho que continuo escrevendo porque nunca mais quero passar por isso. Tornei-me um operário das palavras.
2.
“Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante”.
Ernest Hemingway em Paris é uma festa.
Sou formado em relações internacionais, mas nunca trabalhei na área. Escolhi o curso, juro, por conta do “internacionais” – meu sonho sempre foi viajar o mundo; de certa forma deu certo.
Ainda na faculdade, quando dizia para outras pessoas que cursava relações internacionais, costumava ouvir um “que chique!” acompanhado de um “e trabalha com o quê?”. Ainda que não soubesse explicar direito o que fazia um internacionalista, a carreira diplomática acabou me atraindo durante o curso, adorava as aulas de geopolítica e cheguei a estudar para o concurso de oficial de chancelaria, um nível abaixo dos diplomatas, mas sem a exigência da língua francesa; o concurso demorou anos para acontecer, o que me obrigou a trabalhar em empregos de entrada na área de marketing e deixar de lado uma possível carreira diplomática; por ironia do destino, hoje vivo justamente na França e em três anos poderei aplicar para a cidadania francesa; liberté, égalité, fraternité!
3.
De volta à Europa após uma temporada brasileira, um diálogo inusitado com o agente de imigração em Portugal.
“O que um brasileiro faz na França?” – ele pergunta com um sorriso curioso, não naquele tom inquisidor comum aos oficiais da lei em aeroportos, quando lhe entrego meu titre de séjour (meu cartão francês de residência) junto ao passaporte.
“Sou escritor.” – respondo sabendo que essa resposta costuma ser um portal para novas perguntas.
“E escreves em francês?”
“Em português.” – sinto que preciso formular um pouco melhor para tentar encerrar a conversa logo. “Minha carreira é no Brasil e minha casa em Paris, trabalho de forma remota.”
“E escreves livros?”
“Sim. Estou escrevendo um romance que se passa na Tailândia.”
“Um escritor em Paris… Que chique!”
4.
Há uns anos li um artigo muito bom na falecida VICE de um escritor que copiou as rotinas de escritores famosos e foi uma bosta.
Esse tópico sempre interessa quem escreve e basta uma rápida pesquisa no Google para encontrar os hábitos de escrita de alguns autores consagrados.
“Quando estou trabalhando em um livro ou uma história, eu escrevo toda manhã no mais próximo ao amanhecer possível. Não há ninguém para te perturbar e é fresco ou frio e você vai para seu trabalho e se aquece ao escrever. Você lê o que havia escrito e, como você sempre para quando sabe o que vai acontecer a seguir, você segue dali.
Você escreve até chegar num lugar onde ainda tenha sua essência e saiba o que vai acontecer depois, então você para e tenta viver até o próximo dia, quando volta a isso.
Você começa às seis da manhã, digamos, e pode continuar até o meio-dia ou seguir após isso. Quando você termina, está tão esgotado e ao mesmo tempo tão carregado, que é como se tivesse feito amor com alguém que você ama. Nada pode machucá-lo, nada pode acontecer, nada importa até o próximo dia quando você faz isso de novo. A espera até o próximo dia que é a parte difícil”.
(Ernest Hemingway)
Gosto disso que Hemingway fala sobre parar de escrever sabendo o que acontecerá a seguir; tenho tentado replicar.
5.
“Quando estou em ‘modo escrita’ para um romance, eu acordo às 04h00 e trabalho por cinco ou seis horas. À tarde, corro por 10km ou nado por 1500m (ou faço os dois). Então, leio um pouco e ouço musica. Eu vou para cama às 21h00. Mantenho tal rotina todos os dias, sem variações. A repetição em si se torna a coisa importante; é uma forma de mesmerismo. Eu me auto mesmerizo para alcançar um estado mental mais profundo.
Mas suportar tal repetição por tanto tempo — seis meses a um ano — requer uma boa quantia de força mental e física. Nesse sentido, escrever uma longa novela é como um treino de sobrevivência. Força física é tão necessária quanto sensibilidade artística”.
(Haruki Murakami)
Murakami é um ótimo exemplo de repetição e disciplina – recomendo seu livro Do que eu falo quando falo de corrida.
Essa parte do exercício físico funciona pra mim – passei os três primeiros meses do ano no Brasil treinando para uma maratona que não aconteceu na Coreia do Norte. De volta a Paris, abandonei os treinos de corrida, mas tenho feito longas caminhadas – uma média de 10 quilômetros por dia; é fácil se perder pelas ruas parisienses.
6.
Estou em “modo escrita para um romance”, mas diferente de Murakami, ainda não consigo viver de direitos autorais, de modo que ao longo do dia me vejo em diferentes funções: escritor, produtor de conteúdo, mentor, empreendedor e por aí vai.
Numa semana em que tudo ocorre bem, minha rotina em Paris costuma ser dividida assim:
Segunda-feira – acordo por volta das 7h, perco meia hora ou mais rolando feeds de redes sociais, leio meus e-mails, tomo banho, caminho cerca de 30 minutos até algum café nas redondezas da biblioteca Sainte-Geneviève, tento ler algum livro relacionado ao romance que estou escrevendo (o mais recente foi O adversário, do Emmanuel Carrère), às 10h vou para a biblioteca (ela abre nesse horário) e tento trabalhar no romance até umas 13h – que é quando o relógio bate 8h no Brasil e as primeiras mensagens do WhatsApp começam a pipocar); faço uma hora de intervalo, como qualquer coisa congelada no Picard (um mercado que vende refeições baratas que provavelmente vão me tirar uns dois anos de vida) e volto para a biblioteca; escrevo a edição da newsletter que deve ser publicada na terça-feira; encerro o expediente entre 18h e 19h.
Terça-feira – até o almoço, o mesmo que o dia anterior; depois começam os atendimentos da Mentoria Monetize (no máximo 2 por dia) e produzo conteúdo para as minhas redes sociais e e-mail marketing; encerro o expediente entre 19h e 20h.
Quarta e quinta-feira – a mesma rotina de terça; ao fim do expediente, no entanto, o happy hour está liberado (começou a primavera e o sol está se pondo às 20h32); às vezes chego em casa e sigo o conselho de Joan Didion: “Eu preciso de uma hora sozinha antes do jantar, com uma bebida, para repassar tudo o que fiz naquele dia. Não posso fazer isso no final da tarde porque ainda estou muito envolvida com tudo. Além do mais, a bebida ajuda. Isso me remove das páginas. Eu passo essa hora removendo algumas coisas e adicionando outras.”
Sexta-feira – É o único dia da semana em que tento trabalhar exclusivamente no romance; ao fim do expediente, entre 17h e 18h, você talvez me encontrará com amigos bebendo vinho barato na beira do Rio Sena, do Canal Saint-Martin ou na Place des Vosges.
Sábado e domingo – Lazer; inegociável – ou quase: esse mês realizarei minha primeira oficina de Escrita Criativa presencial em Paris (não tá fácil ganhar em real e gastar em euro, gente).
7.
Apenas uma vez consegui seguir minha própria rotina. São 22h13 de terça em Paris e estou finalizando a edição da newsletter que deveria ter sido escrita ontem; ontem e hoje não mexi no romance; hoje atendi três pessoas na Mentoria Monetize.
Não lembro a última vez que comi. Acho que foi ontem.
Mas segui o conselho da Didion.
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Se você é familiarizado com o meu trabalho, já deve ter percebido que não tolero bullshitagem, de modo que durante a Mentoria buscaremos, juntos, formas realistas para você ganhar dinheiro na internet sem precisar romper com os seus valores pessoais.
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E, se você me permite um clichê, durante 6 meses vou te ajudar a pensar fora da caixa.
💰 A Mentoria Monetize na prática
6 encontros online de 1h30min cada (1 por mês durante 6 meses; você pode escolher as datas e os horários de acordo com a minha agenda – que é bem flexível);
Acesso às gravações dos encontros por 12 meses;
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Menção ao seu projeto na minha newsletter.
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🧠 Para ler, assistir e ouvir
“Uma dose saudável de cuzonismo”; texto do Luri Ribeiro sobre procrastinação, o eu bonzinho e firmar o pé.
“Feel Pomalo: Como a vida pode mudar a qualquer momento”; texto da Camila Gregurincic sobre luto, cura e aprender a desacelerar em um mundo incerto.
Um sonho: escrever como a Patti Smith. Já li tudo dela e estou adorando Pão dos anjos, a obra mais recente de seu projeto autobiográfico.
Estreou no MUBI Brasil (há quase dois meses, mas estou atrasado) a série Blossoms Shangai, de Wong Kar-wai, meu diretor favorito.
O Arthur Miller está fazendo um vídeo por dia durante abril e curtiu bastante esse sobre como ganhar dinheiro fazendo o que gosta.
Distracted, novo álbum do Thundercat, tá uma delícia.
Você sabia que esta newsletter tem uma playlist no Spotify com todas as músicas indicadas aqui? Pois é. A Rádio Passageiro é atualizada semanalmente.




Adorei conhecer sua rotina, amo saber os hábitos de outros escritores!