Medo e Delírio #11 – Do que eu falo quando falo de boxe
No primeiro aniversário dos Jogos Olímpicos de Paris, falo da minha relação com o mais literário dos esportes.
🗣 Oferecimento:
A 11ª edição de 🏴☠️ Medo e Delírio é um oferecimento de Scrivener, o software que orgulhosamente utilizo para escrever meus livros ✍️.
🎧 Para ler ouvindo1: Feeling Good, por Nina Simone.
📍 Paris, França
✍️ Por Matheus de Souza
Escritor e viajante. Autor de Nômade Digital, livro finalista do Prêmio Jabuti.
Introdução
No início de 2024 tive uma ideia: e se eu realizar uma cobertura literária dos Jogos Olímpicos de Paris2? Algo na linha Norman Mailer no Congo (antigo Zaire) cobrindo a luta de Muhammad Ali contra George Foreman ou Hunter S. Thompson no decadente e depravado Kentucky Derby; ou ainda o mesmo Hunter e seu Medo e Delírio em uma corrida de motocicletas no deserto de Las Vegas – Hunter também esteve no Congo contratado pela revista Rolling Stone para cobrir o embate entre Ali e Foreman, mas resolveu ficar bebendo na piscina do hotel e não assistiu a luta3.
Sendo eu, na época, um residente da capital francesa, o veículo que me contratasse para tal trabalho não teria custos com passagens ou hospedagens, bastaria me arrumar uma credencial – e, dependendo do veículo, eu faria o trampo de graça em troca de uma suposta exposição.
Mobilizei alguns contatos na imprensa, bati na porta de veículos em que já escrevi (de graça ou por R$ 100 o texto), mas ninguém comprou a ideia; uns já estavam com o time fechado, outros anunciaram a morte da crônica, mas a maioria resolveu apostar no conteúdo em vídeo gerado por influenciadores digitais – algo que não foi muito bem recebido, veja só você, pela própria imprensa.
Muitas das melhores coisas que aconteceram na minha carreira só aconteceram porque levei um “não”. Quando meu antigo trabalho CLT não liberou o trabalho remoto em 2016 (fui um pouco a frente do tempo, eu sei), criei meu próprio trabalho autônomo – e remoto. Quando o maior jornal do país não quis mais as minhas crônicas de viagem em 2022, criei a newsletter Passageiro – e hoje ganho bem mais com a newsletter do que jamais ganhei no tal jornal; ou com os direitos autorais do meu livro finalista do Prêmio Jabuti. Quando diversos veículos não demonstraram interesse em minha cobertura literária das Olimpíadas em 2024, percebi que eu mesmo já tinha um veículo: Passageiro, a newsletter. Consegui a credencial de forma independente e, bem, é assim que começa a nossa história.
1.
Não sou jornalista, não tenho compromisso com a informação, de modo que foi exatamente isso que me atraiu nesse subgênero chamado jornalismo literário: ser parte da história. Quando deixei minha vida passada no interior de Santa Catarina em 2017 e caí na estrada com apenas duas mochilas, eu tinha 28 anos; quando aposentei as duas mochilas e fixei residência em Paris, 34; entre Santa Catarina e Paris, seis anos de sedentarismo.
Pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos, atletas amadores puderam realizar uma maratona dentro do mesmo percurso que os atletas de elite. Batizada de Marathon Pour Tous4, a iniciativa do Comitê Organizador de Paris reuniu dezenas de corredores amadores do mundo todo para um evento especial na noite de 10 de agosto de 2024.
Para fins literários, teria sido incrível participar como um dos atletas amadores, porém, só tive conhecimento da prova quando as inscrições já estava encerradas. Ao todo, foram selecionadas 20.024 pessoas das mais diversas nacionalidades. Do Brasil, 140 representantes, incluindo Mariana Marins, a Nana do Shot by Nana (@shotbynana), que eu já conhecia do Instagram.
“Será que rola eu acompanhar algum treino seu? Tipo, eu queria correr junto, até onde eu aguentar, evidentemente, e escrever sobre a preparação para a maratona.” – envio uma mensagem para Nana.
“Lógico. Vou adorar. Quarta que vem eu tenho treino de tiro na pista. Topa?”
Topei.
No dia 03 de julho de 2024, pouco antes das 12h30 no horário local, chego ao Centre Sportif Louis Frebault, em Arcueil, nos arredores de Paris, para o tal treino de tiro.
“Os tiros são quatrocentos metros correndo em velocidade máxima. Você pode ir no seu ritmo, claro, mas antes precisamos aquecer.”
“E como funciona o aquecimento?”
“São três quilômetros em ritmo moderado.”
“Três quilômetros de aquecimento?”
“Três quilômetros!” – diz ela aos risos.
Antes mesmo de completarmos o primeiro quilômetro, sugiro que Nana corra no seu ritmo.
“Não quero atrapalhar.”
Aos poucos, ela vai sumindo do meu campo de visão. A sensação é a mesma de assistir um jogador de futebol profissional jogando contra crianças. Se esse é o ritmo dos atletas amadores, me pergunto qual será o dos atletas olímpicos. Desisto logo após completar o primeiro quilômetro e me sento ao lado da pista.
“Descansa para tentar dar pelo menos um tiro.” – Nana diz enquanto corre.
É no tiro que percebo que talvez eu devesse dedicar minha cobertura a outro esporte. Dou meu máximo e não chego nem perto de Nana – que já havia corrido três quilômetros (!).
Ela segue correndo enquanto decido andar de um lado para o outro na tentativa de estabilizar meus batimentos cardíacos.
“Acho que vou parar por aqui. Sábado tenho treino de boxe, não quero exagerar.”
2.
Exceto por uma fase na infância em que eu queria ser ninja, influenciado por filmes em que Pat Morita é o mentor de lutadores mirins – como em Karatê Kid ou em Três Ninjas Contra Atacam (eu era o Colt!) –, luta nunca foi a minha praia. Acho que eu tinha um certo medinho. Sempre fui o mais baixinho da minha turma, o mais magrelo, de modo que, exceto pelo futebol, evitava esportes de contato físico.
Uma das minhas desculpas para o sedentarismo era que eu vivia viajando. Sendo um agora residente do 9º arrondissement de Paris, não havia mais como fugir: o prazo para ter um mínimo de dignidade na velhice estava se esgotando. Procuro por um esporte individual. Penso em correr (isso foi antes do treino com a Nana!) ou quem sabe tentar jogar tênis, mas acabo influenciado digitalmente por uma produtora de conteúdo brasileira que vive em Paris e de repente me vejo num grupo de boxe para lusófonos com um professor brasileiro.
No primeiro treino, me sinto um bonecão do posto, tenho dificuldades em executar os golpes ensinados por Danilo Dourado, o professor, deixo o coreto da Place Dupleix exausto, mas feliz, seria essa a sensação de endorfina pós-exercício?
3.
Três meses após a primeira aula perco aquele sentimento de acho que isso não é para mim, os golpes agora saem de forma automática, não preciso pensar no que é um jab, um direto, um cruzado ou um upper, tenho confiança e um recém-adquirido condicionamento físico que além de não me deixar mais ofegante ao subir os dois lances de escadas do prédio da Pierre Fontaine, me permite acertar uma sequência de seis, oito, até dez golpes sem parar, movimentado-me de um lado para o outro do coreto da Place Dupleix no 15º arrondissement, a guarda sempre alta. A defesa ainda precisa ser melhorada. Consigo bloquear e até antever alguns socos, mas tenho dificuldade com a esquiva e com golpes no corpo – por instinto acabo tentando defender com um tapa, quando na verdade deveria usar mais os cotovelos; a cabeça sabe disso, mas o corpo ainda não.
Acordar cedo aos sábados deixa de ser um martírio e torna-se um ritual; mesmo na chuva, mesmo no frio. Colocar as luvas na mochila, a garrafa d’água, a toalha, o cartão do metrô, os fones, dar play na trilha sonora de Dias Perfeitos (com a duração exata do trajeto até o 15º arrondissement), caminhar até a estação Saint Georges, acenar com a cabeça para meu amigo indiano do mercado G20, ver a fila se formando na boulangerie Cyprien, chegar na estação Saint Georges, pegar a linha 12 sentido Mairie d’Issy, descer na estação Concorde para fazer baldeação para a linha 8 sentindo Balard, descer na La Motte/Picquet Grenelle e tomar cuidado porque a porta do metrô abre no lado oposto, caminhar até o coreto, cumprimentar o Danilo e meus camaradas, aquecer, sair na mão, correr em volta da praça como se fosse Rocky Balboa, comprar bolo de cenoura e pão de batata para I. na pâtisserie brasileira. E tudo de novo no sábado seguinte.
4.
Em 2016, no Rio de Janeiro, Juan Nogueira tornou-se o primeiro pugilista brasileiro da história a competir na categoria Peso Pesado (até 91kg) nos Jogos Olímpicos. Estreou com vitória, ao derrotar o australiano Jason Whateley, até cair para o russo Evgeny Tishchenko, então campeão mundial que ficaria com o ouro ao vencer Vasily Levit, atleta do Cazaquistão.
Num sábado qualquer durante os Jogos Olímpicos de Paris, Juan, a convite de Danilo, seu amigo de longa data, aparece no coreto da Place Dupleix no 15º arrondissement para participar do treino do nosso grupo de boxe para lusófonos.
Devo dizer que, em nosso treinos, quando digo “sair na mão”, não significa exatamente uma luta; nosso treino é focado em técnica, um sparring bastante controlado, de modo que nunca levei um soco na cara – até meu caminho e o de Juan se cruzarem numa manhã qualquer de sábado em Paris.
Ao fim da nossa sessão usual de treino, Danilo propõe que, quem tiver coragem, deve dirigir-se ao centro do coreto para uma aula demonstração; dois rounds de dois minutos cada; sair na mão sem perder a amizade.
Dos oito aprendizes, sou o sétimo a enfrentar Juan. Minha ideia é simples: sair na mão com um Juan já cansado pelos seis embates anteriores – ficar por último poderia dar a entender que sou um arregão; o que de fato sou.
É difícil explicar. Juan, evidentemente, estava saindo na mão da mesma maneira que um adulto brinca de lutinha com uma criança, se ele tivesse saído na mão pra valer, este texto não estaria sendo escrito porque eu teria empacotado no primeiro jab, mas ainda assim, estar frente a frente com um boxeador olímpico Peso Pesado, usando protetor bucal, foi das coisas mais assustadoras que já fiz na vida.
“Bate mais forte, pode bater.” – diz Juan.
Eu tento.
“Boa! É isso aí.”
E aí ele é quem bate.
O soco, claro, não é forte, Juan estava brincando de lutinha, mas sua luva encosta no meu olho. Sinto uma leve irritação na pálpebra. Minha cabeça desliga do combate e tudo que meu cérebro registra é levei um soco, levei um soco, levei um soco; levei um soco de um boxeador olímpico Peso Pesado.
5.
Enquanto Nana corre a Marathon Pour Tous, estou na quadra Philippe-Chatrier, no icônico Stade Roland Garros onde Gustavo Kuerten foi tricampeão no saibro, não para assistir tênis, mas para acompanhar o último dia de boxe olímpico em Paris.
Faço algumas anotações com curiosidades e momentos marcantes, como quando a camaronesa Cindy Ngamba recebe sua medalha de bronze na categoria Peso Médio (até 71kg), a primeira da Equipe Olímpica de Refugiados, a festa da torcida uzbeque quando Abdumalik Khalokovo leva o ouro no Peso Pena (até 57kg) e Bakhodir Jalolov no Peso Pesado, a categoria de Juan, mas nada daquilo importa; percebo que estou no Stade Roland Garros não como alguém que está cobrindo os Jogos Olímpicos, mas como fã do esporte, como fã de boxe; entendo os movimentos, os jabs, os cruzados, os uppers, entendo as regras.
Decido largar meu caderninho e me entrego ao momento; minha cobertura mais esperada torna-se apenas uma lembrança.
6.
Após o fim dos Jogos Olímpicos, treino religiosamente até as festas do fim de ano – quando embarco para o Brasil numa tentativa de fugir do severo e depressivo inverno parisiense.
Estou cada vez mais leve e ágil. Ayrton Senna guiando em Mônaco. Crio uma sequência de dois cruzados de esquerda que meus camaradas de coreto não conseguem antecipar. Correr em volta da Place Dupleix vira moleza; acho que agora consigo correr pelo menos uns 5km; ou aguentar o aquecimento de 3km para uma maratona. O boxe também me devolve a autoestima; volto a usar roupas que já não serviam mais; começo a gostar do que vejo no espelho.
De volta a Paris após a temporada brasileira, não consigo manter a rotina de treinos. O relacionamento que me trouxe à capital francesa é também o que me afasta dela; uma viagem para a Tailândia na tentativa de dar um tempo de tudo e escrever um livro; em Bangkok, vou ao Rajadamnern Stadium assistir umas lutas de muay thai com a esperança de escrever sobre; de novo, não escrevo; apenas escrevo que não escrevi sobre.
Ensaio uma volta – a Paris; ao relacionamento –, tentar de novo antes do fim derradeiro. Mais um treino de boxe, aquele que seria o último com os meus camaradas de coreto, dessa vez na companhia do coral da Eglise Saint Leon que ensaia cânticos enquanto saímos na mão. Uma versão para Hallelujah de Leonard Cohen; o sorriso de Hirayama em Dias Perfeitos.
🎞️ PassageiroTV
Qual o sentido da vida?
Perguntei para um monge tailandês.
A resposta? Juro que não é click bait, mas eu não esperava.
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Todos os textos de Medo e Delírio nas Olimpíadas de Paris podem ser lidos neste link.
Maratona Para Todos, numa tradução literal.
Que bonito, Matheus! Seu lugar está sempre aqui entre os seus companheiros de coreto.
Que bonitas essas pequenas rotinas que vamos criando por onde moramos, e também o que elas nos fazem entender sobre nos mesmos :)